—Tenciono fazer como meu pae, que nunca se casou.
Os assassinos invadiam as estradas para arcabuzar as diligencias, lavravam por toda a banda fomes biblicas e pestes asiaticas. Como Saturno, os coroneis devoravam os regimentos; os generaes cobriam-se de gloria e medalhas nas secretarias, casas de batota e chás officiaes; e os aspirantes de lanceiros eram as primeiras bailarinas do exercito! Todos os dias quebravam casas bancarias, havia leilões por dividas, abriam armazens de penhores, ou os jornaes annunciavam suicidios. E no respeito a sciencias, os astronomos fixavam a terra nos espaços, e todos os astros em roda descabellados em corrumaças de pandega, ou fandangueando em desnalgado bailete.
Os poucos espiritos sãos, voltados sobre um passado de historicas pompas, contemplavam n’uma apathia desopilante, perdoando as vergonhas presentes pelas glorias de então.
Espicaçado pelo exito, rei Menelau invadia os dominios da alta arte poetica, o soneto pastoril, o acrostico recamado de doçuras do Hymeto, o logogripho cheio de trocadilhos e imagens cartonadas, sublimidades metricas onde a real inspiração tinha vôos de gallinacea. As suas preoccupações litterarias subiram a ponto, que até uma penna de bastardinho mandou cravar na ponta do sceptro, inda assim não lhe fosse escapar a inspiração que o ferroasse acaso, ás horas solemnes da pragmatica. Não era raro apparecerem os discursos da corôa e respostas aos plenipotenciarios, crivados de rimas e allusões mythologicas que faziam a confusão dos funccionarios, e chegaram mesmo a levantar hostilidades com os inglezes.
Bem depressa porém, a atmosphera de sympathia e favor em que os loiros de Menelau refloriam, fizeram o rei baboso de sua pessoa, infiltrando-lhe ambições de mais vasto diametro, filaucias de grande homem, e insidias felinas de creança amimada. Nos conselhos da corôa, embuçado no velho manto real, que a agulha da rainha illustrara de passagens com o desenho de centopeias, batia o pé se lhe negavam dinheiro para frescatas a que era dado, allegando ser na verdade um monarcha mal empregado em tal pelintrice de paiz.
Ia audaciosamente das fórmas pindaricas da ode e do soneto heroico, composições lymphaticas de meia pagina, que o das Folhas e Cascas secretamente refundia, para as audacias do volume orlado a côres, todo em cul-de-lampes do estylo mais puro, letras Ehrmann brincadas de figuritas ridentes em attitudes de chimera, illuminado como uma biblia, e impresso em China e Wattman de primeira. E outras aspirações de gloria artistica d’aqui—ter palacios e kiosques por quintas e tapadas, com marmores e bronzes celebres, esplendores de baixella constellados de velho Limoges, cavalgatas historicas pelas florestas, festins de peru para poetas em velludo e oiro, e uma bicharia engaiolada nos jardins do paço, que pela noite era o terror do burgo de redor. Emfim, uma tarde o povo que mendigava nas ruas ao desamparo, roendo talos na sombra dos portões senhoriaes, ou acocorado psalmejando pelas escadarias dos mosteiros, ouviu pela guela dos canhões annunciar, entre morteiros e bandeirolas, barafundas de fidalgaria rolando em berlindas de côrte, alabardeiros de tricorne e quita-sol, liteiras e palafrens em marcha, que os brochadores acabavam os primeiros volumes da versaria real, e nas monumentaes caleças pintadas de erotismos Watteau, viriam pela cidade caminho do paço, á solemne entrega da famosa lucubração do reinante.
No couce do prestito, balanceado nas correias da pesada e alta traquitana insculpida, dizia marquez Fulgencio para a preciosa marqueza, coifada de marabús:
—Espantosa, a obra d’el-rei meu primo! Como execução, que colorido biliar! Pelos fundilhos rotos da rima, vê-se carne morta do ideal. E a emmaranhada fecundidade, bom Deus de Isac e Jacob!... Ah! nunca poderão bem aprecial-a, sem tesoura e pente.
Rei Menelau era um magnanimo, foi um magnanimo em todos os dias do seu reinado. Ante as supplicas dos que em chusma, quotidianamente affluiam ás portas de palacio, n’esse tempo de miseria livida, o seu coração vertia sincero dó. O que o compadecia mais era esmolarem a pé, as pobres creaturas.
E na cathedral d’uma vez, quando uma velha lhe cahiu em joelhos pedindo esmola, o monarcha foi todo admirado da pobre não trazer luvas. Mandava dar a quem vinha restos do seu pantagruelico jantar, cem talheres para a camarilha, baixella de oiro cinzelado, e quarenta artigos de menu, intactos pela maior parte, e portas travessas vendidos depois aos ricos hoteis da cidade. D’onde vinha receberem os pedintes em serviços de Saxe, apenas esqueletos d’aves e peixes, de envolta com rodellas de limão e cascas de fructa. E exquisito á mesa, o bom monarcha. Um fastio!... Para lhe captarem o appetite, condecorados e eruditos cozinheiros esgotavam-se em pastelarias de recheio phantasioso, molhos nunca sonhados, preparações d’especiaria cara—o que vinha a custar rios de contribuições. O rei mal tocava n’um prato ou n’outro. Quanto a beber, muita vez succedeu erguer-se da mesa com olhos pequeninos, entoando coisas desavergonhadas d’um certo naipe, aos beliscões secretos nas carnes de honor, com seu fiosito de baba mui patife no beiço. D’elle dizia marquez Fulgencio então, paternalmente: