—Coração de oiro, um nadinha piteireiro!

Suppliciados de miseria, como iam grassando vertiginosamente a fome e a molestia nos burgos humildes da cidade, determinaram os pobres por conselho da burguezia, implorar do rei quantos proventos este auferisse na venda do precioso livro de versos, tão fallado por esses reinos afóra.

No memorial que a palacio foram levar, todo escripto por um doudejante da geração moderna, phrases equestres empenachadas de imagens n’uma estrupida de hyperboles, hirtos substantivos cambaleando entre adjectivos, como bebedos entre cabos de policia, tropegos verbos remendados de prefixas e espinoteando em cambalhotas como arlequins—empalhavam processionalmente os espantalhos classicos com que a populaça se julga ennobrecer e heroismar aos olhos dos ricos e poderosos, nos seus mezes de jejum forçado. Alli se allegava o tradicional amor das blusas pelas monarchias; a coragem, valentia e esforços havidos em commum, nas guerras contra o invasor; soffrimentos sem queixa sangrados em inundações e subidas do milho, emquanto o paço nas recepções de circumvisinhos monarchas, caros e nunca assaz amados primos, walsava de calção curto, invertendo as barrigas das pernas nos derrancos do cotillon; alli se chamava ao povo eterna creança, leão indomado, Prometheu captivo na rocha, Atlas, e uma convergencia de historicas calumnias, afinadas no sentido de surprehenderem á bocca do cofre, mui lampeiramente, é verdade, os centos de mil reis que rendesse a principesca edição de rimas e cascas. Tres periodos ou quatro sobretudo, exalçavam com arte a mais pathetica, um certo rolão vulgarisado nas comidas pobres, que pelos dizeres da petição, usava amassar-se com suores de trabalho, amarguras da indigencia (que vida, Jesus, que vida!) e altas dosagens mais d’outros liquidos humanos, d’excreção dolorosa ao que parecia. «Esse pão negro e duro, excelso senhor e rei, dizia o requerimento, é o dos que soffrem e trabalham em prol das industrias e agriculturas patrias, é o pão do povo, o pão da officina, o pão da pobreza. Rudes canceiras logram ganhal-o, suor de nossas frontes o amassa; mas alimentando o corpo, elle enche ao mesmo tempo a consciencia d’uma santissima paz inviolavel. Á noite, sob os tectos das mansardas, quando a chuva...» Ia assim o panegyrico da brôa, escorrido da penna doudejante, luzido, esfregado de novo, tocando pratos e com porta-machados á frente; e em carriolas d’estylo passavam depois allegorias d’instituto, com diademas á fadista e ventres estripados de crina, rhetorica que para além de tres seculos, havia já figurava em cortejos de pompa igual, elogios de sabios mortos por exemplo, introitos de relatorios sobre os arrozaes, programmas de partido politico, cabeçalhos de testamento e não sei que homilias de quaresma. «Oh! mas esse pão vem-nos transfigurado quando legitimamente ganho, e iguaria alguma de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em exquisito sabor...» Justamente este trecho comprometteu a fortuna da pretenção, por deixar cogitativo nosso rei Menelau. Com que, exquisito e magnifico de sabor, hein? E assim remordia elle sob os baldaquinos do throno, mexendo os dedos dos pés em folgadas babuchas de missanga:

—Os cozinheiros do paço vão estancando os seus arsenaes de receitas, sem que até hoje lhes tenha podido manifestar por seus meritos a minha real satisfação. Ora que estes funccionarios nunca hão de fazer lulas a meu contento!... E então que sinto um fraco positivamente por estas vassallas de caldeirada... Oh, os cozinheiros! Condecoral-os foi perdel-os. Desde que brilha no peito do chefe a commenda dos zoilos verdes, vae a côrte notando decadencia nos fricassés—e pela minha santa Padroeira que era um papo de milho, o pedaço de gallinha que hontem me serviram no jantar de gala. Tambem, tornou elle bruscamente, mettendo os dedos enroscados de anneis pelas buracarias do manto; como hão de grosseiras gentes interpretar o paladar d’um principe? Vem todas de muito baixo, para verem uma arte—e concluiu devagarinho—no comer. O que mais serve a meu contento inda assim, é o cozinheiro da fazenda. Mas faz-me almoçar contribuições em sangue, quasi cruas, de fórma que para as comer, todo me enojo a retirar-lhe de cima as pelles de contribuintes, que sempre vem agarradas co’a violencia da penhora. O caso é que me estragam o estomago e vou estando obeso e branco como uma abbadessa. De vereadores e merceeiros rotundos, poderão dizer os maldizentes, que me trazem na barriga; mas sobre esta pansa espheroide que irão conjecturar senão que ando aqui a digerir o thesouro?—Uma tristeza poetica empanava-lhe a face de capadinho. Disse lentamente umas poucas de vezes, partindo as palavras como quem as esburga de sentido «... amassado com o suor...»—quasi esteve a esboçar um gesto de nojo, recordando calceteiros ignobeis, incrustados de lama como animaes d’esgoto e suando bestialmente, que dias antes vira n’uma rua, enfileirados no trabalho como captivos no ergastulo; mas continuou «... iguaria de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em esquisito sabor». Fez de si para si:

—É talvez bom para diabetes esse pão celestial. E eu soffro!

Esteve sem fallar um bocado, e estrallejando a unha grande d’encontro aos caninos de lobo, ergueu magestosamente a face na crispatura de quem scisma, aquella face historica e rigida que a pragmatica mandava, nas quedas de ministerio.

—Pois vou-me experimentar pão com suor, a vêr que tal. Mordomo!

Um janizaro rapado á navalha, grandes collarinhos especando o cerebello, libré doirada com bolotas de relevo, e vastos lacis apopleticos de face, ergueu magistralmente o reposteiro, acto continuo fazendo com a cabeça um arco de cento e oitenta. O rei foi dizendo:

—Que promettese alguma coisa aos do memorial, tudo mesmo, mas ouça cá, para o anno que vem. Se gostarem de musica, a banda toca o hymno lá baixo no pateo. Mas hei por minha espontanea vontade não reverter o lucro das minhas rimas em beneficio das classes famintas, agora que ellas tanto exaltam o pão, primeiro ganho e depois comido. Sim, diga-lhes que iremos ao Te Deum na cathedral se as colheitas forem capazes, que tencionamos não pedir mais dotação, nem auctorisar augmentos d’imposto além do duplo dos que vigoram. Olhe, mordomo, ria-se para elles, coitados, que passam mal segundo infiro, e são fieis e passivos vassallos, conforme afiançam no seu favor de tantos do corrente. Quanto ao dinheiro temos pena, sim, verdadeira penna de pato, mas vê bem o mordomo: elle tem destino, oh, destino mui nobre e exemplificante. É que vamos comprar farinha, suar o suor do trabalho que dizem ahi tão amaro e sublime, e com estas duas coisas amassaremos pão de que nos iremos alimentando, e a côrte.

O mordomo attonito, sem atinar com palavras de resposta, esteve livido d’assombro alguns momentos, e arquejava dentro da farda como um grande kagado na sua concha.