Mas emquanto taes alegrias vehementes esfogueteavam assim nos clubs do pé-fresco, extraordinarias batalhas se feriam em palacio, indomitas, torvelinhantes, entre Menelau que teimava democratisar-se ao limite n’aquelle passeio ás hortas, projectado, e toda a soberba côrte envergonhada de semelhante dispauterio.

Porque emfim, se o monarcha descia do solio a fandanguear com patuleas de jaqueta e bocca de sino, a illusão optica da magestade ficaria perdida de todo, visto ella residir na persuasão geral de que o rei por fórma alguma podia ser um homemzinho á semelhança de qualquer outro, porém uma especie de semi-deus como o mikado japonez, meio mythico, meio incomprehensivel, meio velado, e sempre complexo, vibrando medos de redor quem se aproximasse, participando as propriedades da tromba-marinha, tendo os lampejos da scentelha electrica, e em communicação com os grandes espiritos errantes da sabedoria, da força, e da justiça. Desgraça se algum vassallo sentisse a sua voz de cega-rega, lhe adivinhasse caspa, lhe chegasse a suppôr fórma e natureza ordinaria, ou no grande polypeiro da real batata, contar viesse, ter-lhe notado botões purulentos, como na penca do mais elephantiaco general reformado. Ah, sendo assim, a monarchia estaria perdida! Que iria ser depois d’isso, do estranho nimbo, vetusto e terrifico, da velha realeza superficialmente doirada, que respeito inspiraria ella, quando o mulherio tocando-lhe nos velludilhos do manto reconhecesse logo que eram d’algodão, e pondo os olhos nos borguezins vermelhos do principe, entrevisse a rir por uma fenda, na culminancia dos callos, algum prosaico resquicio de piuga?

—Cautela, meu primo e soberano, cautela, dissera marquez Fulgencio, todo peralvilho n’uma cabelleira empoada e profusa, assestando o lorgnon com requintes impertinentes. A experiencia d’estes meus annos vos manda contar, que o povo imagina os monarchas pelas effigies das moedas e estampilhas, cuidando que elles só teem cabeça, e de relevo! Conheço a fundo a predilecção que daes ás lulas, e de sobejo vos tenho mostrado quanta benevolencia me inspiram essas pequeninas devassidões de paladar. Sois rapaz, sabeis evitar a azia pelo bicarbonato... Desde os arabes que a nossa familia cobre do seu real appetite, aquelles animaesinhos filamentosos; ha mesmo em brazão de nossa casa, uma caldeirada de lulas em campo de prata, que demonio! Mas se por ellas vos metterdes a dentro no banquete que intentaes, a plebe verá que tendes intestino, ao contrario dos deuses. E o carrascão, precioso soberano! Na nossa familia, este sumo dá azas á lingua, principalmente sendo por conta do lavrador; lembrai-vos que os segredos d’Estado devem ser inviolaveis.

Mas o rei ficou inflexivel ainda, impaciente mesmo e desgostado, por vêr que o não seguiam no unico systema de restaurar o amor do seu povo, e fornecer completas provas do quanto elle seria capaz de se sacrificar pela felicidade dos subditos.

Todos os meios de persuasão esgotados, o ministerio dos antigos, que sempre caprichára impôr o seu credo de rotina, secular e barbaro, ás passividades deprimentes da corôa, julgou digno pedir a demissão; marquez Fulgencio, que fôra n’um canto esfregar as palpebras corrugadas de cynico, com cebola, volveu chorando aos borzeguins do primo, pedindo para alli morrer, antes que transigir; e como urgia um profundo golpe politico, foi chamado o partido novo, e jorraram as reformas, começando pelos tres dias de festa e reconciliação geral, consoante o programma em boato.

Apenas publicado esse programma, violentas sobr’excitações tetanisaram a cidade, ninguém queria crêr, o commercio teve medo, fez-se lucto entre os nobres, e o resto ria e farandolava em vivorio descommunal. Embalde as grandes classes mandaram deputações, d’embate aos caprichos democraticos do monarcha, fazendo-lhe sentir os perigos que havia, n’uma popularidade jogada de tal fórma.

—Meu primo e soberano, as tradições de nossos maiores... aventurava marquez Fulgencio.

—Os fornecimentos de meus parentes em atrazo, dizia lacrimoso o mordomo.

—As prosperidades d’esta gloriosa nação, entrou a dizer o alto commercio. E Menelau impaciente:

—Não! Não! Não!