Appellou-se para a religião, e vieram os grandes mitrados de longas paragens, implorar por sua vez. Não! O poeta favorito mesmo, que via ameaçado o seu pascigo revigorante á mesa dos quarenta talheres, recebeu na face morta uma recusa formal.

E os jornaes:

—Estamos sobre um vulcão. Ás armas!

Mas qual armas! O populacho que fazia os motins e intimidava os poderes, estava do outro lado.

E as festas tiveram logar, apparecendo os ministros tunicados d’amarello, e o rei com ramas de loiro no craneo, e ricas sandalias cobertas de saphiras e perolas. Para chegar á campina onde estavam postas as mesas do festim, atravessava-se o grande lago, calmo e magnifico como um Mediterraneo. Era no tempo de maio, o ceu fazia tenda de montanha a montanha e horisonte a horisonte; entre oasis de palmeiras, cedros, baobabs e arecaes ondulantes, pequeninas aldeias riam sobre as aguas, entre reviravoltas de pombos e inviolaveis cegonhas brancas, sagradas no paiz. Violentos reverberos de sol enchiam a marinha toda d’arestas refulgentes, verduras de juncaes por entre as ilhotas perdidas, humidas massas de bosque em cujos mysterios, extaticos dormiam formidaveis tumulos de heroes e reis barbaros, sacudindo dos verandahs arruidos tapetes de folhas e cascatas de flôres.

Acastellavam-se em volta titanescos scenarios de serrania lascada, convulsiva, aspera, côr de lilaz nos recovados á sombra, azul nas faces meio luminosas, e fulvas ou côr de rosa pelos espinhaços onde mais vivas diziam as incidencias do sol; e mais longe, cada vez mais, nas ultimas escarpas de silhouette apagada, fazia obeliscos a neve, enormes, n’um scintillante crystal de facetas em flecha. Espendurado de barrocaes a pique, pela vertente dos desfiladeiros onde cabritos montezes balavam de cornatura demoniaca, os pagodes cobriam-se dos seus chapéos de feltro, grutescos como clowns repicando ao vento carrilhões phantasticos de campainhas. Então n’um grande trireme escarlate, esculpido de chimeras de oiro, dragões alados, cães de Fó com sceptros na pata, o rei no meio dos seus ministros, sob tendaes de purpura e ramos de oliveira, atravessou o lago nas azas dos remos, como n’um fim de magica, apotheotico, enramado, entre barcaças onde a turba se apinhava para o saudar ao som de cantigas, que as guitarras repinicavam sob as unhas dos bailhões, em acompanhamento ás rimas extrahidaa da real versaria. Bebia o rei por copos d’antiga fórma, como lêra ser uso antigamente, o vinho que negritos vasavam d’alto, rôxo-terra, de bellas amphoras lavradas de mascarões e relevos. Gritavam-lhe muitos:

—Deixa provar, ó reinadio!—E vá de risota na companhia.

As barcaças levavam quem tinha querido entrar, gente de acaso, gente de trabalho, mal vestida e grosseira. Menelau na sua tunica de linho, a meio dos ministros, barriga proeminente e vasta, onde as pontas dos seus dedos mal podiam cruzar-se, afigurava assim coroado de verde, d’estas gallinhas cruas, expostas nas casas de pasto sobre ramilhetes de salsa—e á pôpa do trireme um menestrel repetia-lhe as proprias composições.