Derrotavam por esta e aquella aldeia, e mais povo em lanchões advinha a engrossar a esquadrilha.
—Pae, diziam pequeninos gentios de nariz arrebitado e face de cobre, o rei assoa-se ás mangas com’a gente. Megeras de grenha revolta, pernas nuas, tanga de riscado, cabellosas de tromba, pasmavam que o rei não fosse de roca, como os idolos da freguezia.
E evaporado o encanto as desillusões começavam; até que aproaram n’um desembarcadeiro pittoresco, onde colonias d’algas estendiam para a rocha, supplices mãos de vergastadas—e a turba urrando, cantando, brandindo maças, agitando as pennas d’avestruz doa saiões, fazendo telintar braceletes de bronze nos membros, e collares de dentes dos inimigos vencidos em combate singular, ia desembarcando em desordem, arco ao hombro, flechas á cinta, aos saltos sobre as frescuras da areia molle e salgadia. De pé no trireme, ia-os o rei passando em revista preguiçosamente, enojado do fartum que deitavam, perguntando se povo era aquillo, e no fim de contas já dizendo mal á sua vida.
Ninguém da corte o tinha querido acompanhar, nem o menestral, nem marquez Fulgencio, o que amargou á sua benevola alma de creança, pueril, desequilibrada, sem firmeza, ao mesmo tempo fidalga e pusillanime. Lançado em plena campina, o banquete tinha simplicidades de menu, por tal maneira rusticas e primitivas, que os pés-frescos entraram logo a murmurar, n’uma raiva de fome estimulada pelas emanações do lago. Para entalar uma bucha de pão com o meio litro de vinho, não valia a pena sahir de casa, muito menos da cidade; que diabo de rei era este somitego, que nem se explicava ao menos com dois dedos de beef? Os gritos de—carne! carne!—pozeram de sobreaviso o monarcha, forçoso foi mandar abater os bois que havia nas arribanas da granja. Como os cozinheiros do paço, orgulhosos da sua sciencia e jerarchia, não tinham querido embarcar, os convidados arregaçando as mangas e brandindo navalhões, deliberaram elles mesmos fazer cozinha. E o arraial ganhou com isto episodios d’effeito imprevisto, desordens carniceiras, alegrias ferozes d’insaciavel gula, como n’um acampamento de nomadas.
Por toda a planicie acendiam fogueiras, subiam ás arvores para cortar lenha, esfolavam e abriam pelo ventre corpulentas rezes dependuradas nos galhos do pinheiral; entre as cabellugens viscosas do matto, na exuberancia das relvas, aqui, além, viam-se abalar mulheres em cata d’agua, levando cantaros á cabeça; por traz das rochas, nos maciços de zambujeiro, alecrim selvagem, leitos de campanella, rosmaninho ou trevo, languidos casaes rompiam á socapa, recompondo furtivamente nos vestidos, a desordem do amor partilhado. E Menelau paternal, esfregava as suas mãos prelaticias, rosnando:—ah seus maganões, toca fazer população! Cavalgando pipas que sem cessar jorravam, outros bebiam por grandes escudellas, olho turvo, maçã congestionada, arengando a oratoria das tabernas e dos mercados. Mas o cheiro da carniça grelhada entre pedras, que entrou a derramar-se no campo, trouxe os primeiros desenfreamentos do appetite, os urros e pulos redobravam; magotes de gentio com vivas ao monarcha, agitando ramos e farrapos, lá iam em danças da Africana, meio obscenas, meio barbaras, deante da tenda regia desenrolando serpentes com vastas perspectivas, n’um charivari de remoinhos e berros, em que se misturava o basso som dos pés descalços no chão. O festim começou na relva, por baixo dos pinheiros, aqui e além desordenadamente, com maltas de grossas femeas, collarejas, lavadeiras, donas de tasca, senhoritas d’arrabalde, deliciadas d’arengar na presença do rei, todo o calão officinal dos seus mestres.
A titulo d’exemplo, Menelau impozera-se comer apenas d’aquelle nobre pão suado nas lides do trabalho, heroicamente, tão saboroso e reconstituinte no rezar da petição que os populares tinham feito. E por simples comprazer d’agradar, ia manducando a grandes bocados esse rolão salobro e massudo como argamassa, que sabia a terra e a bafio. Por vezes, a droga vinha-lhe á bocca n’um solavanco d’azia, lagrimas involuntarias brotavam dos seus olhos pisados, emquanto o povo murmurava—está commovido, mariola! Querendo reanimar o monarcha, os pés-frescos tomavam liberdades d’occasião, davam-lhe abraços em pleno ventre, propunham-lhe jogar o homem, ou no melhor dos callos lhe iam ferrando pisadas esmagadoras, mascavando brindes com vozes de vinho, n’um chafurdar d’insolentes cordialidades. Ao mesmo tempo, e mais isto o maguava, ouvia elle os versos que compozera em noites inspiradas, repetidos por boccas vinosas, corruptos de calão, intercalados de riso e facecias, e subia-lhe um desgosto de funebre reinar sobre tal babuge de homens. Fulgencio tinha razão, tarde reconhecia isto, o pobre Menelau! Mas forçoso era parecer alegre, mesmo respondendo a brindes, que em vez de lisongearem a sua divina pessoa, o estavam enxovalhando mais e mais.
Com um riso livido marbreando-lhe a bocca contrafeita elle esboçava gestos, que bruscamente se quebravam n’um asco, respondia palavras incoherentes; e pelas fauces da canalha viam-se desapparecer os ultimos nacos de boi e os ultimos picheis de vinho. Veio a noite, nas sonolencias do campo os grillos crivavam o silencio de silvos, e como lampadas accesas para uma boda, já as estrellas pendiam na tenda palpitante dos céos. Blondes translucidas subiam do lago, condensavam-se, subiam mais, ligeiramente, apagando nas serras a chanfradura dos desfiladeiros, e confundindo bastiões de rocha com as torres asperas dos pagodes—pois a essa hora ainda, espapaçados por baixo das arvores, os pés-frescos bebiam ou rolavam nos braços das suas damas. E como o rei quizesse voltar, muitos oppunham-se, cercavam-no, mais um pedacinho, amigo rei, por quem é, apertando-se-lhe em volta n’uma quadrilha de ratoneiros. A retirada foi quasi uma evasão, todos queriam embarcar no trireme; muitos em zig-zagues, batiam no hombro de Menelau, dizendo—até sempre, ó coiso, explica-te cá com um cigarro. E o rei impava da brôa comida, sentia-se asphyxiar pausadamente, crescia-lhe o estomago dorido, e suores d’angustia gelavam-se empastando-lhe os cabellos nas fontes. Tarde o seu arrependimento chegava, de haver transigido com a populaça, e abdicado do orgulho dynastico que mantinha a distancia, essa vil raça de fellahs; esquecera que a realeza como o pau bichoso, dura podre muito tempo, em se lhe não tocando; a sua travessia pelos versos fôra ridicula; querendo viver do triste pão das cabanas, tinha sido idiota. E como esponja embebida em liquidos, turgecia-lhe no estomago aquelle rolão comido, desmedidamente, furiosamente, obstruindo-o n’um peso de metal que enregela e se mobilisa. Para o desembarcar, os ministros fizeram padiola, porque o monarcha nem se podia mexer; e atraz a turba esguedelhada, praguejava e mugia á luz dos fachos, na alegria indecorosa do vinho.
Rubros clarões então descobriram os caes apinhados de burguezes, de chapéo sobre os olhos e mãos nos bolsos, rindo baixo uns para os outros, e voltando costas quando passava o cortejo.
Por vezes, do coração das trevas rompia um dichote cruel, que instigava publicamente o escarneo, incitando á revolta; escuridões gordurosas choviam das emboscadas, fervilhando rumores d’ameaça; e subitamente, cortando o bairro nobre, babylonia de fachadas algidas, alpendres lugubres, e torres roqueiras com gradaria carcomida, Menelau viu bem que estava perdido. Nem uma luz nas frontarias, nem um viva na bocca das familias patricias, que o viam passar co’a turba multa de pés-frescos. E a sua bocca escaldava, o estomago crescia-lhe sempre, e esses labios brancos murmuravam n’uma afflicção d’embuchado:—o meu reino por uma botija de Sedlitz!