Ai, pobre Menelau! Quizera digerir pão ganho a trabalhar, como se de tal fosse capaz o seu estomago d’ocioso, delicado, senhoril, dyspeptico, que uma ascendencia de pompas, costumes galantes e prazeres, sómente educára a viver do pão dos outros, e aqui está como se foi d’indigestão o bom rei Menelau, tão querido do seu povo, que todos os annos inda agora, ha lucto no dia da sua morte; e antes d’elle seis mezes ninguém trabalha de magua, o que tambem se dá nos seis seguintes, apesar de mui laboriosos, todos os habitantes do pequenino paiz dos pagodes. Para cumulo de pouca sorte, morreu sem admirar a rica palma chifre e oiro, que pelos certamens poeticos do outono, Mont-Real lhe endereçou em preito ás Folhas e Cascas rimadas, premio votado unanime pela nobre academia tolousina, na secção: sujet libre, quarents vers au plus.

A palma figurou muitos decennios entre as joias da corôa; mas fatalidade! veio um dia a republica, que a fez talhar em botões, para as cuecas de gala do presidente.


JANTAR NO MOINHO

Estes dias luminosos em que nos apraz o amor das coisas simples, a comprehensão e o cumprimento dos deveres honrados, passados no campo e fóra da convivencia monotona dos trens de praça, dos meetings republicanos com vivorio, dos typhos e do parlamento, são-nos particularmente agradaveis e infiltram-nos no organismo fatigado, particulas de saude que fazem alegre a alma, e dentro de nós cantam marchas colossaes de poderosa instrumentação, preghieras de rythmo suavissimo e casto, toda uma opera de auroras e triumphos, cheia de grandes arias e surprehendentes córos. O ceu não tem negrumes, é frio e lavado o ar, transparencias em que o olhar se embebe sem esforço e a alma sonha sem pesadelo. Tu bem conheces este estado gazoso da alma, caro homem gordo que vens de me lêr, quando passas da rua onde móras na Baixa, para o ar de Pedrouços ou Lavarrabos. Este purissimo azul cantado desde que ha lyras, tão puro de lei, que nem as evolações morbigenas da poesia chocha d’outros tempos conseguiram corromper e estragar, sempre novo para os evohés de cada vate que chega, é o grande poema colossal, que cada um de nós busca metrificar e comprehender, na aprendizagem artistica de cada espirito em jornada para o supremo ideal de bondade, de justiça e d’amor.

Em cada manhã que rompe, pelas esplanadas que vagarosamente o arado sulcou, e as primeiras folhiculas das seáras germinantes avelludam de um tom verde e tenro; pelos barrancos franjados de arvoresitas sem folhas, espinheiros cobertos de drupas escarlates, maciços d’alecrins selvagens, losnas acres, rosmaninhos sombrios, estevas, piornos e murtas, o sol verte a sua pulverisação de oiro n’uma serie de musicaes vibrações, cujo rythmo só percebe uma pupilla impressionista; vibrações por que se afina a musica dos passaros na pennugem dos ninhos e o pizzicato do arvoredo regorgitante de seiva; vibrações que provocam lentamente o desgelo em refulgente orvalho, na concavidade dos pegos, á flor dos quaes anuros irrompem coaxando, verdentos e amorosos, fazendo tambem os couplets do seu primeiro noivado d’este anno...

Com o meu chapeu derrubado e as minhas botas de couro cru, solidas e altas, cinta preta e jaleca de pelles, á hora em que os senhores estão digerindo ainda môlhos do Silva e carinhos d’itaïra, vou eu a pé, fumando o meu cachimbo ou pensando nos meus alqueves, pelas veredas que passam nas folhas de semeadura, ou como fulvas serpentes galgam as espinhas dorsaes das cordilheiras.

Os cantos dos pardaes recordam-me sem saber porque, um canto d’ave estrangeira, preciosa ave cujo perfil etrusco lembra uma pintura exhumada dos sarcophagos de Corneto e Castellaccio, e cuja larynge é um thesouro—mademoiselle Borghi, essa morena de olhos intelligentes e bocca sarcastica, a quem Lisboa já deveu as maiores commoções e os mais vivos enthusiasmos.