E á força de muito pensar na cantora, sob estas arvores que em voz baixa cochicham e gentilmente me cumprimentam, as coquettes, julgo que a voz d’ella me chega abafada no rumor das franças que o vento beija, trazida sobre os monstros phantasticos de nuvens elegantissimas, que chegam em caravanas como dromedarios dolentes, com a sua bagagem de chuva talvez; ou ainda communicada pelos fios do telegrapho, em cujo extremo Edisson tivesse a bondade de nos prender a sua simplissima e prodigiosa descoberta.
N’uma aldeia lá baixo, ao fundo do aspero Alemtejo, onde passo a mór parte do tempo, a raça é bella de linha, vigorosa e sobria, d’uma pureza e simplicidade de costumes que me encantam, e governando-se como as tribus dos primeiros dias, sem conhecer ente supremo, além d’um velho lavrador patriarcha que reparte com os mais pobres, nos maus annos, os seus celleiros. Admiravel, a ignorancia serena d’estas boas almas pelo resto do mundo, e o seu desprezo ao mesmo tempo, pelos artificios pelintras, que grassam como uma civilisação tuberculada, por terras mais populosas da cercania,—cabeças de comarca com funccionarios a trezentos mil reis e casaquinha de botões recomidos, ou pobres villotas, a que a estação de caminho de ferro deu pretensões de centro culto e fidalga indolencia. O circo de montanhas altissimas que serve de fichu á aldeia, isolou dos maus convivios a população laboriosa, cuja probidade inabalavel é encantadora de vêr. Ao mesmo tempo, um respeito pelas mulheres, um desvelo de familia para familia, uma religião poetica e pagã da natureza... As raparigas casadeiras sahem sós pelos campos, em cabello e roupinha curta, atravessam as eiras e os jogos de bola ao domingo, n’uma confiança donairosa, que é sympathica a toda a gente. Á porta das cabanas, a população das femeas costura e canta, n’uma paz cheia de candura. No meio dos largos, oliveiras de troncos rocados onde enxuga roupa. Os bois de trabalho, enormes, tendo um ar de pessoas de familia, com leves cumprimentos de cabeça para um lado e outro, passam junto ás portas sem guia, caminho dos seus curraes, á hora de beber; ou na grande dorna da fonte, sorvem com intermittencias preguiçosas, a agua que jorra por uma gotteira desconforme, em quanto aos seus pés quasi nuas, espendurando-se-lhes dos cornos, creanças brincam como bandos de novilhos descuidosos. Quando desce o astro, galvanoplastisando no poente clarões de forja titanesca, e entra a vir por baixo das arvores uma brisa refrigerante, as raparigas tomam os cantaros á cabeça, e direitas, trigueiras, de olhos magnificos, mãos no quadril, abalam por grupos cantando á fonte, com regularidades quasi architecturaes de figura. Vão os campos adormecendo, algum cão de malhada tem latidos, a aldeia tem recolhido aos lares, dos seus rusticos trabalhos, e faz-se assembléa geral em redor da fonte, para saber como ficou cada um na colheita, se fulana casa, e o burro do compadre vae melhor. Os rapazes arregaçados e altos, figura secca e musculo d’aço, bellos adolescentes como Yalouleds argelinos, tendo um ar calmo de estatuas, tiram agua para os cantaros das irmãs e das primas, cantando sob os freixos que agitam com ar benevolo, as suas cabelleiras de folhagem.
Os gados apertam-se cabriolando com sêde junto do bebedouro, fazendo elegias com balidos, a exprimirem poeticamente as suas saudades do sol. Trindades. Escurece. Por baixo dos parreiraes sem folhas, umas agora, outras depois, vêem-se as moças em silhouette, equilibrando cantos arabes, sem ondulações nas ancas, e como levadas n’um sopro.
—Até ámanhã! Até ámanhã!
—Como vae a tua vacca, Maria?
—Mal, por desgraça minha. Desde que o boi lhe morreu, o alimal não tem cara de gente!
Resposta que pinta a vida primitiva, amiga e em commum, d’esta familia toda animal, homens e brutos, partilhando eguaes interesses e gozando d’eguaes respeitos, sem distincção de fórmas ou categorias, o homem auxiliando o bruto, o bruto auxiliando o homem, e todos com direito á vida, e todos com direito á estima, santa vida!
Meio dia nos relogios de sol dos camponezes que varejam as oliveiras (não podem calcular como houve azeitona este anno!...) e no estomago valente das raparigas, que em baixo curvadas sobre a terra, apanham os fructosinhos negros cantando:
Tenho dentro do meu peito