Um canivete doirado,

Para cortar um pan-leve

No dia do teu noivado.

O sol é como um botão d’oiro polido na farda azul do incommensuravel. Subo as encostas apoiado ao meu bordão de rendeiro, e á medida que subo alargam-se-me os horisontes, como pannos de fundo successivamente corridos nos confins dos valles, que a luz retoca n’uma graça castissima de tonalidades.

Á direita, um moinho braceja com os seus braços de vélas laboriosas, dilatadas como azas de borboletas reaes. E penso no moinho de Daudet, aquella deliciosa ruina no fundo da Provença legendaria! O vento faz-lhe ranger as cordagens e o cavername. Á roda tudo verde, relvas altas e humidas, tapeçarias interminaveis que ás ouviellas dos ferragiaes vão descendo, com os seus bouquets de arvoredo, renques de choupos e salgueiros, casinholas e hortejos, o convento em ruinas onde as corujas piam, e no declive silencioso, o cemiterio da aldeia, sem capella e sem arvores, semeado de pontos negros com numeros brancos, e tendo aqui e além, pequenas grades negras de sepulturas. Detenho sobre aquelle cerrado os meus olhos. Ai de mim! Dos que me viram pequeno e me tiveram nos joelhos, dos que brincaram comigo e todas as manhãs me vinham acordar n’um cicio de beijos castos e risadinhas innocentes—pobres e queridos deuses da minha alma!—muitos jazem além para nunca mais.

Doze badaladas na parochia. Os que lavram e os que varejam, os que apanham azeitona e plantam bacello, param da faina.

Meio dia, panella vazia! é o que se ouve. E nas courellas, nos olivaes, nos reconcavos da montanha e nos vinhedos do valle, ranchos fazem roda, cantando para jantar. Biot, Helmoltz ou mesmo Tyndall, se estivessem cá, iam logo calcular a distancia dos cantadores pela intensidade mais ou menos amortecida com que aqui chegam as vozes. Eu sigo caminho, fumando no meu cachimbo, solitario e nostalgico, com a saudade brumosa dos que nunca tiveram chance na vida.

Começa o montado, chão coberto de bolotas, arvores lacoonticas que pendem carregadas de fructos, meio engastados nas suas capsulas serabulhentas. A vara de suinos passa, fossando, tasquinhando, grunhindo. O suino mesmo em sociedade, é macambuzio, coitado! Quantos vivem e morrem a comer essa bolota farinosa, que a meia duzia dos seus irmãos felizes faz bordar a ouro nas golas dos uniformes de gala! Detenho-me a calcular melancolicamente, que por mil d’estes tristes assados em familia, e patentes á venda por essas salchicharias, ha talvez um só que chega a conselheiro. E esse consagrado mesmo, que monotono e que tristonho!... Quasi sempre copía em côrte o ar rhinoceronte do rei João VI, calvo, obeso, adiposo e molle. Mesmo a fallar na camara dos pares, do seu fauteuil côr de bronze, sob os olhares do arcebispo de Mytelene, a sua voz é um grunhido nasal, bom para se repercutir em charneca, nada mais. E o typo do massador, do auctor de prosa dura, victima de fluxos hemorrhoidaes, callos olho de perdiz, e assaduras na região do perineo. Sempre que elle é ministro, os artigos politicos da opposição representam apenas—um raspão de costelleta.

E no seu fervor doutrinario, a maioria, o mais a que chega, é a servir ao paiz Son excellence Eugène Rougon, com feijão branco.