Á janella do seu moinho, o moleiro de barrete azul e cigarro, faz-me os seus cumprimentos de velho amigo, confessando que me não esperava tão cedo, e dizendo que estou um homem, benza-me Deus!—o que a fallar serio me não espanta, pois que lh’o oiço ha dez annos, sempre que nos vimos no campo. Pomo’-nos a tagarellar sobre o que vae pelo mundo, nos casamentos projectados, pauladas distribuidas desde a minha ultima estada na terra, nas esperanças da seára e no preço do vinho. Que as decimas do anno hão de augmentar, pelos modos? Ha uma coisa que não entende lá muito bem, o pobre trabalhador, a quem o Estado tudo suga e nada dá.
—Uma comparação! diz-me elle com energico arregaçar de mangas.
Comprar uma creatura o seu porquinho, gastar na compra do bagaço e farello com que o engorda, ás vezes uma quantia séria, e quando vae a fazer chouriços e presuntos do bicho, vir a magana da justiça dizer—oh! das cabras, salta p’ra cá tanto, por fazeres matança p’r’á fartura da casa. Paga-se de ter burro, de ser casado, de ter filhos, de pisar a terra de Deus, paga-se de tudo, senhores!... Com um dedo descuidoso aponto-lhe a rir o varapau que elle esqueceu á porta. O moleiro encolhe os hombros e responde:
—Mas em quem?
Encolho tambem os meus, sem lhe poder mostrar um costado criminoso, n’um paiz onde todos mais ou menos o são.
Se quero jantar? Não recuso, e elle vem-me abrir a sua porta hospitaleira, fazendo-me penetrar a sua morada cheia de saccos de farinha, mós alvas, e trigos em montões sobre as grandes esteiras de palma do Algarve. A mulher estende a toalha na banca, lisonjeada da minha franqueza e orgulhosa de me receber á sua mesa, a santa creatura! Uma pequena loira, de olhos espantados e bocca humida, um grande cão de guarda de poderosa cabeça e pêllo negro, dois gatos malhados, e o rapaz do carrego, chegam-se para me receber affavelmente, para me sorrirem, para brincarem comigo e me fazerem festa.
E todos:
—Esta casa é sua! Esta casa é sua!
Dizem o moleiro e a mulher com a bocca, os gatos, os cães, a pequenina e o rapaz com os olhos—bons olhos sinceros e castos onde Deus reflecte a suprema bondade, e a biblia do azul deixa um capitulo da sua limpidez.