Dia agreste, cheio de incertezas no alto, com alternativas de sol e contramarchas de nuvens, que muito baixas, deixando farrapos pelos cabeços, a espaços truncavam a cordilheira, embaciando a transparencia viva das verduras. Nos esqueletos das arvores punha a rajada volitações de folhas, vinha um frio doloroso dos longes; e por massas, na opacidade do ar, troncos cruzados, ramadas vibrantes na symphonia dos ventos, toda a confusão regelada dos bosques que vão rebentando a medo, davam uma sensação de amargura e d’abandono. Como iam grossas as aguas por esses barrancos e corregos, alagavam-se os terrenos baixos, exhumavam-se radiculas tortuosas côr de ferrugem, das barreiras que resistir queriam ao turbilhão, e vinha das relvas zurzidas pela enxurrada, das attitudes contrafeitas e bruscos gestos do arvoredo, uma fadiga imbecil e attonita dôr, que quasi trahiam impotencia. Terrenos fóra alastravam-se ainda calvas aridas, bocados de chão velho hirsutos de cans vegetaes, aqui e além pintalgados de germinações timidas, pallidas, finas, caminhando em filões, com o effeito de pinceladas ao acaso. Por toda a banda começava o cevar de hyena, da herva nova que se lustra, engorda e alimenta do cadaver da herva velha, e em vaidades de debochada, a vai pisando, humilhando e roendo, com uma especie de implacavel ciume.

Cada pequenina folha rebentando, trazia ao mesmo tempo, herdadas lascivias secretas, como uma ancia nupcial que alongava os peciolos em pescoço para os beijos do amor frenetico, revirava os apices como linguas á descoberta d’alguma nova sensação, irritando em titillações mysteriosas sobre os reversos das folhas, as villosidades e pellos, no doido prazer esbanjado de uma kermesse. Do entresolo dos bosques vinham susurros de catadupas, azenhas trabalhando, gemidos de caules vergastados, ou ultimos idyllios de folhas outoniças que esvoaçam já mortas. N’essa transição de quadra, a natureza chorava melancolias lyricas, e se o bocejo da nevoa rasgada, deixava contemplar por momentos algum florão de ceu brunido a reverberos de sol, viam-se no azul pallido, sobre o engaste do horisonte, os dulcissimos furta-côres que teem certos nós da madreperola, tons de nacar, junquilho, turqueza e oiro, fundindo em maravilhosos reflexos.

Nas setteirás da grande chaminé provinciana, larga e alta como um torreão de solar, o vento bramia em todos os tons, da raiva á supplica, querendo a todo o transe assaltar a vivenda, implorando, dizendo segredinhos, batendo pancadas humildes, e quedando-se após como salteador, na esperança que fossem abrir.

De noite, uma chuva batera as vidraças e cahira sonoramente nas telhas, sob os golpes da ventania inclemente. Tempo que desalentava os trabalhadores e embebia de tristuras a alma fragil das mulheres!

Pelos vidros da alcova, via-se um bocado do jardim, pimenteiras verdes fazendo oscillar ao vento o seu pranto de folhitas oblongas, eloendros sem flôr, cedros anões, pyramidaes e bojudos, canteiros de anemonas, rainunculos, goivos, rosaes e alfazemas, toda a flora chinfrim dos quintalorios de provincia. E alongando os olhos, Maria de Jesus via mesmo deitada, os queridos arbustos que os pardaes debicavam, e todas essas flôres mal abertas, que nos canteiros punham mosaicos de irregulares coloridos.

A casa ficava d’alto, sobre uma ondulação dos saibros, por fórma que das janellas acima mesmo da parede do quintal, podiam dominar-se todas as perspectivas agricultadas do valle. Eram renques de castanheiros á orla do rio barrento, que a planura repartia em veigas ferteis, laranjaes, olivaes, latadas e quintarolas cingidas por sebes de piteiras e sabugueiros, cantos de courella onde pascia a indolencia fulva dos bois, jumentos e ovelhas roendo pellugens nos vallados. Mais para lá, grandes amphitheatros de outeiros, hirsutos de matto e crenelados de penhas lugubres, armavam escadarias de cyclopes contra a nevoa ondulosa dos ceus—e nitidamente cortados em brancos de caliça violentos, sem claro-escuro, fins de aldeia iam-se esbatendo nos primeiros planos, collina abaixo, casas terreas com chaminés sahindo em torrella das frontarias, esbracejos de parreiras por cima dos muros, medas de azinho e serras de palha em cathedral, carros de matto erriçados de fueiros, portões de adegas com mariolas provando o tinto, mulheres fazendo meia nos poiaes das portas, gallinhas e porcos revolvendo as estrumeiras podres, ruidos de bigorna, cantos de gallos, e no cotovêlo da estrada, já distante, dois paus em cruz historiando um assassinato.

No quintal, por cima do palheiro, a um lado, havia um mirante com balaustrada de louça, a que se subia por uma escada de tijolo, orlada de craveiros e cachos de fuchsias. Entre palheiro e mirante era o pombal.

A cama da doentinha ficava n’um angulo da alcova, e por entre as cortinas podia ella, mesmo deitada, alongar a vista contra a residencia das queridas aves, que em grupos na cimalha do mirante, nos angulos do telhado, ou á porta das pequeninas moradas, se agachavam tristes, pennas em tufos, cabecinhas debaixo da aza, ou bico alto, espreitando a hostilidade parda do ceu. Um ou outro pombo audacioso voava ás vezes por cima do mirante, em arrulhos timidos, saltitando nos balaustres, cauda em leque n’um gracioso movimento de subida e descida, e esse debicar de volatil ocioso, que procura distrahir-se fazendo mal.

A rajada porém fazia-o volver logo ao ninho, impotente para o vôo, de cabeça baixa e azas molhadas. Mesmo tossindo, face irritada de rosetas funebres, guela secca de febre, Maria de Jesus seguia as sortidas dos seus amiguinhos, cheia de dó porque elles soffriam.

Esse dia foi cruel para todos! Ás duas horas, a febre trouxera desvario, e o Santo do Outeiro, com a barretina ao lado e cruz em riste, mais o embuçado de aos pés da cama fazendo rolar pela barba fulva, grandes lagrimas silenciosas, volveram a encher de scenas tragicas a mente da pobre criança, walsando, passando, estacando, esgrimindo gestos de todas as fórmas, e descobrindo á luz uma face em que se repintavam todas as emoções e momices. Tão alto o resfolegar, que se ouvia nos quartos proximos, arquejante, estriduloso, acabando por vezes em silvo. A pelle secca, de contactos asperos, queimava como se fôra uma braza, e no peito que tomára tons amarellos, o animal feroz do coração, comprimido na jaula, batia de encontro ás paredes, pondo na carne solavancos temerosos de vêr. Ao mesmo tempo, espicaçava-lhe o tronco o cinto de causticos que lhe fôra applicado; machinalmente os seus beiços diziam—agua!—e escancarados n’um pasmo vitreo, os olhos erravam no tecto á procura de um ponto tranquillo, onde não chegasse em galope o djerid de phantasmas traiçoeiros. Bateram Trindades, já os ultimos ares do dia eram absorvidos na sombra dos aguaceiros, e da alcova esclarecida a luz de lampada, nada se descortinava sobre o pombal ou sobre o jardim. Mas os vidros da janella tremeram de leve, uma grande mão de dedos esguios bateu devagarinho, bateu...