Dôces e tristes, os olhos da velha mãi reconheceram na treva, a aza do pombo negro fatidica e implacavel, a que o indeciso da noite dava proporções desmesuradas. A tremer chegou-se á filha, viu-lhe um riso suavissimo, espiritualisado de angustia e todo luminoso de innocencia. Cahira o arquejar da respiração, as palpebras cerravam-se-lhe repousando, e no desenho do corpo indeciso nas penumbras do quarto, a pallidez da cara sómente, punha em redor o divino clarão de uma aureola de martyrio.
—Os pombos! tornava surdamente a velha, os pombos!...
E era toda a sua queixa.
Pelo dia seguinte a esperança estava perdida. Os tecidos flaccidos abandonaram-se a uma lassidão tenaz, sem resposta a estimulos de qualquer ordem. Mal se sentia a respiração da doente, e como um pendulo que faz em cada vez oscillações de menor arco, assim o impulso do coração, successivamente enfraquecia. Ao chegar de manhã o velho doutor Patricio, inda sentiu sob os dedos nodosos, o pulso vermiforme que ondulando fugia n’um fio tenuissimo. Ás dez, a onda partida do coração era menos viva já, e mal chegava abaixo do cotovêlo.
Depois fez-se inda mais curta, e lembrava assim o exercito em retirada que lentamente desguarnece um acampamento. Mal lhe sentiu frias as extremidades, e n’um desvairamento de morte, pôde estudar no rosto da filha a anatomia mortificada e plumbea, que é o toilette do corpo para as bodas do cemiterio, a pobre velha desatou a bradar pelas casas como doida, tropeçando nos moveis e despedaçando as roupas da sua misera viuvez.
Corriam ao appello os velhos amigos da casa, e as santas mulheres que tinham visto nascer a pobre Maria. E um chôro cortado de lamentos, enchia a casa, fazendo alarme nas ruas. Alguem notára desusada actividade no pombal. Os chefes entravam pelas casinholas e picavam raivosamente as femeas no agasalho do choco, fazendo-as abalar dos ninhos; e em revoadas doidas por cima do mirante, a turba frenetica afugentava alguma coisa dos ares, parecendo perseguir um inimigo occulto, sem arrufos, sem arrulhos, mas por uma fórma incansavel. Na vertigem da debandada eram profanados os ninhos, rolavam os ovos do alto, ou vinham-se esmigalhar nos tijolos da escadaria os pobres borrachos, brutalmente investidos pelos paes. Por vezes toda a buliçosa legião pousada nos cimos do mirante, armava linha de batalha com graça marcial, em que faziam mosaico as armaduras de plumas dos peitos, e o furta côres dos pescoços levianos. O pombo negro, que dir-se-hia ter crescido pela noite, parecia commandar o veloz regimento, e no extremo da fileira, cabeça alta e olhos inquietos, estudava o horisonte tumultuoso das nuvens, que um dardo de sol ensanguentava a espaços.
Ia pela abobada uma decoração dantesca, profusa em contrastes de negro e branco, com fumaradas errantes que o vento acossava de onde a onde. Por instantes condensada em cupula, ou rachando em zig-zagues de oiro sob o choque dos bulcões em peleja, uma felpa de negro electrico, pastelava ameaçadoramente a amplidão, n’um tom unido azul d’aço, felpa que era como o grosso do invencivel exercito de nuvens. Não havia ainda trovões, e o ar rarefeito transmittia sons difficilmente. Além d’isso, dava-se nos sêres e nas coisas uma suspensão de assombro, recolhimentos de plateia á escuta d’um lance tragico.
Viam-se chegar galopando os ultimos esquadrões da tormenta, ao de manso, n’um pittoresco de emboscada, com as suas provisões d’agua e fogo. Aquillo galgava por cima das montanhas, ennovellando-se em musculaturas titanicas como nos despenhados de Milton, e subindo a tomar fileira na formidavel ordenação da batalha. Alguns medonhos athletas ficavam por momentos em pé sobre os morros crenelados da cordilheira, alongando os braços n’uma selvageria de fórmas. E arrojando ao largo os capacetes e escudos, pousavam de cabelleira em floresta, a provocar em volta esses anões terrenos que se agachavam de medo.
Mas outros mais arrogantes, vinham logo atraz d’esses na escalada emprehendida, cavalgando-os, cingindo-os em lucta singular, e subindo ás costas dos que vinham depois. E bagagens, animaes de ataque, leões em rebanhos, jaguares e pantheras, carbonosos elephantes armados de torres, carros de guerra com panoplias de tridentes... Ante essa invasão sem barreiras, a natureza amedrontada retrahia-se em fremitos. Nem um vôo, de arvore a arvore. Nos pinheiros, castanheiros, e oliveiras de troncos rocados, havia gestos de supplica e dôr centenaria. Por baixo da sua velha ponte romana, e todo cosido com os pedregulhos e juncos do leito, desertava o rio sem rumor. Um trovão principiou em surdina do extremo horisonte, veio vindo, vindo mais retumbante, como se quizesse fender essa basilica armada em funeral. O pombo negro abria n’esse instante as azas a pairar um segundo, e no mais alto do mirante pousou-se n’um grande vaso de cactos, como n’um miradouro de fortaleza cercada. Tinha a cabeça vibrante, bico no ar, o peito rufado—e com os seus olhos castanhos observava os ceus de lado, altivamente, no seu posto. Cahiam já grossas gottas de chuva, que o ar riscavam de arames parallelos, rolando pelo terreno em espheroides vestidos de poeiras fulvas.
Em magotes por essas azinhagas, enxada ao hombro, ramos de trovisco nos chapeirões, jumentos pela arreata, os trabalhadores recolhiam-se á villa, amedrontrados, recomeçando a Magnifica, um ar de deslumbramento estupido. E alongando os pescoços n’uma angustia, as vaccadas mugiam fundo, sob o peso da asphyxiante atmosphera. Branca de encontro á fuligem do ar, a villa resahia agora n’um minucioso desenho de casas lavadas, chaminés aggressivas, e portas carreteiras fechando por cancellões de ripa, como se um grande reverbero em meio da sombra a rembranisasse. Começavam ruidos subterraneos, vertigens bruscas de relampagos... Nuvemzinhas pallidas, gazes de tessitura fragil, punhos de valencienne, e plumas de leques rasgados em crispações de raiva, corriam, pousavam, debandavam, damasquinando os negrumes com phantasias niveas.