E o pombo negro não descançava nunca! Viam-no voejar em ellipsoides cada vez mais largas, investir bruscamente pelas ventanas do pombal, cuspindo de dentro a palha dos ninhos com turbilhões de pennugem.
A sua actividade tinha coleras e vertigens. Elle fazia debandar o batalhão dos guerreiros, ia e vinha allucinado, mais negro que nunca, reflexos de aço nas azas, e um alvoroto de pennugens na raiz do bico.
As mulheres menos maguadas, que para distrahir-se vinham olhar pelos vidros as arvores do jardim e a vida do pombal, espantavam-se de similhante tumulto de aves.
—Que terão os pombos? Que adivinharão os pombos? perguntavam fingindo ignorancia. Todas porém sabiam a historia da deserção. Era o agouro realisado, toda a familia de almas que ia emigrar, acompanhando ao céo a sua irmã, envolvendo-a na jornada, defendendo-a com as azas, alimentando-a com arrulhos, vestindo-a da brancura divina da sua pureza, e emittindo-lhe o esplendor da sua graça.
Quando o velho doutor chegou, a face de Maria cavára-se de todo, havia na sua testa diaphaneidades de cera, e um tom verde-negro raiando-lhe das fontes, afogava-lhe as feições n’um como luzeiro phosphorente. Nas azas do nariz vincadas a ferro, pontos fulvos depunham-se em crystallisação microscopica, como o pollen de uma funerea flôr desmanchada. E os olhos abertos, gelados de humores, perdida a transparencia, davam á physionomia uma singular expressão de acabamento, angustia e suavidade idiota, deixando vêr no terrivel relance, como o animal se ia transfazendo em coisa.
—Rezem, disse o velho em voz alta, pondo o chapeu para sahir, no meio dos choros renovados.
Os ultimos pombos abriam as azas, abalando por sua ordem, a installar-se na enorme serpente, que se desenrolava palpitando sob a irisação de um ultimo raio de sol doentio.
—Os pombos! os pombos!... dizia agora toda a gente.