O ROUBO
Á porta da enfermaria pousaram a maca, á espera.
—Eh Ramon! gritou o enfermeiro, do fundo. Um servente já velho, olhou na direcção da voz, e de venta no ar, mangas arregaçadas, o labio estupido, farejava. O enfermeiro juntou:
—Cama do canto, vá!
E com o seu geito vagaroso, abria em volta de um que expirava, o biombo isolador, papel azul e verde, com ramitos de rosas e borboletas.
Alta e interminavel, a enfermaria recordava ainda o claustro d’onde nascera, com as suas pilastras de cantaria bruta, a abobada caiada de que os lampeões cahiam symetricamente, e janellas d’uma banda e outra, encimadas de respiradouros circulares. Tinha talvez cem doentes a caserna desconforme, em cujo circuito se viam pequenas bancas de pinho com escarradores de folha, boletins clinicos pendendo a cada cabeceira, e na brancura amarellenta das fronhas, cabeças lividas de olhos estoirados, que se sentiam sós entre tanta gente, e mais soffriam de contemplar os males circumvisinhos. O enfermeiro era um de olhos biliosos e barba dura, cuja rude voz destillava monosyllabos roucos. O seu ventre abahulava-se em obesidades balôfas e a face livida, picada de variola, tinha uma expressão cobarde, espesinhada por esse longo mister de humilhações. Os ajudantes, gallegos velhos, não eram mais dôces de modos, e dia e noite altercando sobre qualquer coisa, batiam os sapatorros no sobrado, mostrando pelos descosidos da camisa, musculaturas de toiro sob epidermes de gallinha cozida.
Era quasi noite, e estagnava á flôr das coisas, uma penumbra morna em que se multiplicavam as larvas da febre, na atroz labuta da podridão. Tinham descoberto a maca no entanto, o enfermeiro viera vêr pachorrentamente, e com um dedo mostrára aos serventes a cama do canto, já prompta a receber hospede. Cada um d’elles então, foi a seu lado da maca; o mais baixo agarrou nos varaes da frente, o mais secco nos de traz. O enfermeiro disse—upa!—e em direitura á cama, a maca atravessou a enfermaria. O doente que vinha de entrar, era um rapazito enfezado e triste, cabeça oblonga toda rapada, um geito de dizer provinciano, e essa doçura de olhar em que se estrellam todas as resignações. Devia contar treze annos, e viera aos dez de Santa Comba, recommendado ao Pinto por um lojista da terra. A vida na loja, durante os tres annos, fôra uma aspera peleja, de madrugada ás onze horas da noite, dia a dia, sem repouso. Era elle quem varria, como marçano mais novo, quem punha os taipaes, e manhãsinha abria a porta, limpava o pó e moía o café. Mettido no saguão de lagedo ou na cozinha tenebrosa da loja, onde de verão e inverno, uma baba salitrosa e gelada chorava da cantaria immunda e das paredes pulverulentas, ahi passava os dias, só com uma triste camisa coberta de nodoas, arregaçada nas mangas e rota por toda a parte, calças de cotim sobre as pernas núas, e tamancos nos pés sem meias, engordurados e torpes. Os invernos tinham sido implacaveis n’esse antro, mesmo para o montanhezito afeito aos gelos das serras beirãs. Como os portaes não tinham portas, um ventinho horrivel cortava pelo corredor, da loja ao saguão, zebrando nas carnes listrões arroxados, pondo frieiras nas mãos dos caixeiros, e tornando a cozinha inhabitavel e mortifera. O marçano não se queixava. Nunca na sua vida tivera jaleca, as calças de cotim safado, luzentes de sebo, não lhe resguardavam as pernitas esqueleticas, e cortado á escovinha, o cabello não podia resguardar-lhe a pelle do craneo. Quando chovia, peor ainda. A agua inundando o saguão, golfava na cosinha, escorrendo pela anfractuosidade das pedras, e vindo molhar os fardos do armazem.