Era então preciso desarrumar aquillo tudo, carregar saccos de assucar, costaes de bacalhau, barricas de peixe secco e manteiga, caixotes de golozeimas, lavar o chão, todos os preventivos exigidos. E sempre elle, o mais fraco e pequeno de todos, carregava com esses trabalhos pesados, e aturava os ralhos. Duas ou tres vezes, o Pinto insinuado pelos caixeiros, lhe batera com uma corda molhada, porque se queimava o café, porque tinham bolor os rebuçados, e algumas vezes, porque as arganassas invadiam os caixotes da fazenda. Era o joguete das intrigas do armazem, o ponto obrigado das chacotas villãs dos caixeiros, o alvo dos ralhos e a victima dos delirios viciosos, d’esses tres ou quatro encarcerados brutaes, que só podiam deixar a loja tres horas por quinzena.

Nos dias agrestes em que era forçado a residir no saguão, sentia por vezes já nos ultimos tempos, a cada lufada de vento, picadas interiores, ardencias mortaes no peito, oppressões vagas, um mau estar indefinido. E aquillo coincidia com uma sensação de fraqueza geral, dôres nas articulações, esquecimentos de membros e vertigens frequentes. O terceiro inverno foi o mais terrivel, e n’uma manhã em que a febre o calcinava e o delirio lhe fazia dizer incoherencias, quando furiosos os caixeiros o iam tirar da cama a pontapés, deram com a sua respiração arquejante, viram-lhe os olhos sem luz, e desceram com medo. E quando anoiteceu, mesmo em mangas de camisa e calças de cotim, o pobre dava entrada no hospital, na maca da esquadra proxima, e aos hombros de quatro gallegos.

Essas primeiras horas de enfermaria foram para o rapazelho um desconforto mortal. Estrangulava-o uma sensação glacial de abandono e de pavôr, a ideia de matadouro onde se morre abandonado ao som de risadas, entre agonias atrozes, sem sacramentos e sem palavras de piedade. Dos fechos da abobada penumbrosa, os lampeões quadrados cahiam com luz triste, immovel na atmosphera podre do ambito, clarões que se amorteciam nos angulos da peça, em cujas muralhas, sombras de pilares traçavam fórmas de arvores colossaes.

No amontoado de leitos, e no sonho phantastico d’aquella luz amarellenta de craneiro, o marçano mal pôde no fervor da febre que o minava, reconstruir com verdade pelo que via, a vida purulenta do estabulo, para onde a cidade varria os seus tumores e as suas miserias. Pareceu-lhe que o deitavam ao pé de uma grande janella, n’algum canto de sombra luctuosa. Duas mãos enormes ergueram-lhe a cabeça para lhe metter o travesseiro, sentiu as coberturas comprimidas aos pés, e erguendo a vista, deu com uma cara gordalhuda e chata de enfermeiro, bigodes cahindo aos cantos da beiçada horrenda, e esse ar de enfado ainda peor que a raiva, que pronostica a indifferença e o embrutecimento, de corações onde todas as cordas estão partidas. Cahiu então n’um estupor profundo, e assim ficou como os outros, arquejando, a pelle secca, bocca aberta e lingua cornea, pequenos gritos afflictivos, que a espaços marcavam as visões do delirio, que ia evocando. Nunca soube dizer os dias e as noites, que assim esteve atolado em modorra sinistra, com listrões plumbeos na face, carnes flaccidas, e sempre aquella oppressão que o afogava com teimosia cruel, se abandonando os travesseiros altos, procurava estender-se um momento sobre algum lado. Ás vezes, alguem lhe chegava ao pé, faziam-no sentar bruscamente na cama, com perguntas rapidas, se estava melhor, que voltasse a cabeça, estivesse socegado, ou erguesse o braço, para lhe cortarem as bolhas que o cinto de causticos abrira, pondo vermelho e doloroso no thorax, todo um circuito de carne viva. O que o atormentava eram as percussões que sobre chagas abertas lhe faziam, de manhã e á tarde, á hora da visita clinica. Se pedia mais devagar, o enfermeiro impunha-lhe silencio, e aquelles olhos de bilioso, vitrificados como n’uma porcelana chineza, davam um calefrio ao pobre rapaz. Noites atrozes, crescia-lhe a febre, e perdido o tino, punha-se a disparatar. Todas as scenas dos tres annos de loja se desmanchavam e reproduziam n’esses desvarios escandentes—a noite em que fôra roubado o armazem, e d’uma vez que ficára a zorra da mulata portas a dentro, batuqueando co’a malta, e ainda as sovas do Pinto com uma corda molhada, por não ter apparecido o gato. Nada volvia a agitar-se com mais frenetica insistencia, n’esse pequeno cerebro atormentado pelo mal, que o roubo da loja. Os caixeiros tinham-se escapulido ao fechar da porta, e elle ficára só, em noite de S. João.

Deitado na enxerga do subsolo, barriga para o ar, as roupas fóra, mãos acima da cabeça, o pobre, sósinho no armazem enorme, pensava com saudades, na fogueira que em Santa Comba, deante do casebre natal ardia a essas horas da noite, e os irmãositos saltavam alegremente em cabriola ruidosa. Pela rua fóra, tudo seriam fogueiras, colmos em montes, canavouras de favas estalando na labareda rubra, e em torno dos mastros verdes, bailaricos alegres, bichas interminaveis de rapazio, rumorejos de guitarras e explosões de pandeiretas. Sobre a villa acordada em descantes, uma corôa de luz poria nas nuvens, o oiro-rosa das alvoradas de maio. As frontarias esclarecidas seriam alegres, e o relogio da egreja iria badalando a meia noite de S. João, quando o chavelho da lua mingoante, symbolico e triste, se fosse a sumir por traz de cabeços solitarios, vestidos de pinhaes sem termo. E abandonado para alli, emquanto escamugidos da loja como larapios, os outros andavam gozando pela cidade, elle fazia por dormir, sem poder. A porta da loja ficára unida, para quando os senhores entrassem. Que triste ser pobrinho e desgraçado!

Em tres annos de mourejar, apenas para comer tinha ganho. E tinha já vergonha de se vêr sebentão pelo armazem, e ao levar aos freguezes de estima no grande cabaz da loja, as mercearias encommendadas, ficava-se acabrunhado e tremulo antes de bater á porta, receoso que o expulsassem, cuspissem de nojo ao vêl-o, e o descompuzessem pelos rasgões da camisa, pelos calçotes de cotim gordurento, tão curtos que se lhe viam as canellas, vergastadas pela orla de coiro dos sapatorros montanhezes. Duas vezes ou tres, pela alta manhã, lhe quiz parecer que andava gente no armazem. Inda chegou a erguer-se da cama. Procurou os phosphoros, tinham-lhe esquecido na cozinha. E pondo o ouvido á escuta, apenas percebeu que as arganassas roiam nas cestas do macarrão, ou pelo lagedo arrastando papeis, armavam as correrias das mais noites. Demais, ia-o embebendo a modorra da madrugada. Fôra penoso o dia—moer café toda a santa tarde, arrumar garrafas que tinham vindo, limpar o bolor dos queijos...

E os olhos fechavam-se-lhe no amortecimento de uma enorme fadiga, quando muito ao de manso outra vez, as taes passadinhas soaram abafando ruidos, como de alguem que fosse, encostado ás paredes, tacteando as coisas na escuridade. A vontade d’elle era gritar—quem anda ahi?—procurava os phosphoros, mas vinha uma cobardia fundil-o todo, batiam-lhe os dentes—se fossem ladrões!... E na sua mente lendas de malfeitores tomavam relevo, attitudes tragicas, em que brilhavam navalhas e corria sangue. E os seus ouvidos zumbiam no terror d’aquella espectativa, e um phosphoro raspado na parede, abria clarões tibios, a cuja luz, a figura do larapio tomava relevos de sinistra audacia, o tic sagaz de um animal feroz, pescoço estendido, á escuta para dentro, e cabeça chata, de um desenho de carnivoro, a que duas grandes orelhas despegadas das temporas, davam o aspecto de um mocho, esgalgado e lugubre. Ó Jasué! Ó Jasué!... E a voz que assim dissera, abafava-se em segredar entrecortado, parecendo voar por todos os pontos da casa, da abobada da loja á escadinha da cava: quando da rua um silvo discreto, lá longe, na precaução de um plano estudado, fazia cahir o phosphoro e correr a sombra do larapio, aos encontrões nas trevas. O marçano fazia então para gritar esforços desesperados; levavam o dinheiro da loja e a fazenda, o Pinto matal-o-hia em sabendo... E aquella suprema ideia galvanisando-o todo, fazia-o saltar da cama com um berro rouco, braços no ar, incoherencias de possesso... O larapio porem voltava, tinha-se-lhe atirado ás guelas, sacudia-o—quatro da manhã! Era o ajudante de quarto, com o remedio n’um copinho de folha.

Afinal, abrindo olhos conscientes, ao fim de não sei quantas semanas de parvoice morbida, conseguiu dar fé com tranquillidade, dos seus companheiros de camarata, os visinhos mórmente. Era já n’uma manhã de maio, nos dias em que a humidade das ruelas profundas e o frio dos interiores desabrigados, fazem parellelo ingrato com a tepidez da luz exterior, tão benefica que pelos troncos entorpecidos na hibernagem faz subir revigoramentos de seiva, e vae brotando dos bolbos decorações patheticas de folhas, como accende nas faces rubores de saude, e nos corpos rodopios de alegria insaciavel. Essa magnificencia gradual da terra paramentada de coloridos finos, relvas mosqueadas de malmequeres, papoilas e maios, as transições infinitas do verde que ondula do amarello ao anil, bosquejando fundos de oasis ás casinholas rusticas das hortas, feria pelo contraste os habitantes da velha enfermaria, de paredes impenetraveis, pilares gigantescos, e esse calor insipido de fogões que ardem, noite e dia, com intensidade prefixa n’uma escala, amollentando corpos e favorecendo as fermentações. Alguns hospitalados que melhoravam, derreados ainda pelo assedio de longas enfermidades, iam de janella em janella e cama em cama, espreitando a agitação da cidade alastrada em baixo, na expansão irregular de um bairro pobre, predios esguios, beccos de escadinhas, quintalorios afunilados, ou a coragem dos infelizes que em crise hesitavam, entre a franca convalescença e o franco paroxismo.