Um velho camponez de Chellas por exemplo, ingenuo e palreiro, era d’uma solicitude tocante. Tinha a face rude e calcinada das intemperies do campo, mãos disformes com dedos curvos, que a convivencia da enxada já não deixava endireitar, suiça amarella e raza imbecilisando o riso, e um sincero interesse pela sorte dos companheiros de doença. Curvado no capotão de briche da casa, barretinho branco atado no coronal, elle ia encostado ás camas, todas as manhãs saber dos seus doentes, ajudar os moços no serviço das rações e distribuição dos remedios, contar a sua vida aos que já iam melhor, dizer brejeirices aos que se punham á janella, alentar os que se amarguravam ou rezar pelos que já não sentiam.
E uma noite em que o da cama 24 morreu, o de Chellas sentado na cama, olhos nos dois punhos, chorou umas poucas de horas, como se fosse da familia, o que fez escandalo nas gentes do serviço, o enfermeiro principalmente, que chupando o cachimbo, olho morto, lhe chamou em voz alta—grande pantomineiro! O marçano tinha um amor pelo bom homem, ingenuo como elle, fallando n’um tom descansado que lhe recordava as gentes de Santa Comba, e que sabia esses proverbios rudimentares, sobre estados de tempo ou saude, signaes de colheitas ou fortuna pessoal, em que o povo usa synthetisar o seu patrimonio de observações seculares e anonymas. Era o velho de Chellas a unica pessoa que lhe mostrára interesse, querendo saber d’onde era, que fazia, o nome do pai, se na loja era bem tratado, e que tal de paparóca...
Assim, na manhã em que a melhora se esboçou lealmente no marçano, pelo espirito lucido que volvia ao cabo de um periodo agudo, em que a febre lhe vedára de todo, percepções fieis e coherentes juizos, a primeira cara que afrontou, abrindo os olhos de um somno reparador, foi a do camponez que lhe sorriu, da cama do visinho do canto, a cujos pés estava assentado. E foi elle quem, no fim de uma grande parlenda sobre a doença de ambos, com o braço estendido lhe foi apresentando a enfermaria toda, com a historia de cada doente, as respectivas manias, as gracinhas dos moços, as invasões bruscas da estudantada, que escancarava as portas do guarda-vento, para em risos e replicas se espraiar depois, em volta de cada caso clinico mais curioso. De tudo, n’essa estufa de efflorescencias morbidas, havia um typo—velhos paralyticos, doenças febris, uma collecção completa de tisicos em todos os graus, classificados por ordem, cardiacos de face terrosa e respiração intermittente, enfermidades viciosas que eram a hilaridade dos convalescentes, anemias, bocios, tumores, um museu de torpeza physica, fazendo o orgulho de uma população e o delirio de um clinico. E reproduzindo o riso, a voz e o gesto do doutor, o velho de Chellas em pé junto ao leito do marçano, arremedava aquelle, d’uma vez que mostrando a enfermaria a um collega da provincia, dizia alegremente:
—Faz-se o que é possivel para haver de tudo, meu caro. Dá trabalho, não nego, mas com boa vontade...
—Bento nome de Deus! fazia amedrontado o rapazito, em quanto radioso da emoção que produzia, o outro tomava folegos, n’um orgulho de contar tão bem.
—Vê vossê o do numero 13, vê? dizia elle.—Esboçava o typo, detalhando devagar—aquelle gordo, todo calvo, passando o fogão... Anda por dois annos que mora cá, entrevadito de todo, e fôra do matadouro. Mau, santinho, como nunca vi! Desde que entrou, não diz senão agua!—quando tem sede. Cova!—se os colchões vão abaixo c’o peso do corpanzil, e assim. De estar para o mesmo lado, semanas e semanas, faz-se-lhe o corpo em chaga viva; e teem-lhe uma raiva na casa!... Nem admira—não arranjando recommendações, não avezando gorgeta, nem bom ar ao menos... A principio vinha a filha, domingos e quintas, com lembranças, sua fruta, e umas certas pratinhas... Eram descomposturas de morte na rapariga, que por fim mudou de bairro, entende? aborrecida do trambolho ruim. E o que fica de contente, em alguem morrendo!—Á força de viver aqui, já conhece o estado da creatura pelo fungar da respiração. Estando para haver carne fresca, avisa logo, a rir, como vingado d’alguma birra velha.
Aquelle contar, dava calefrios ao marçano, cuja phantasia ensopada em toscas superstições de provincia, creava no leito 13, uma incarnação de diabo sarcastico, vivendo da tortura alheia, perto dos delirios, na allucinação das febres e no coração das dôres, batendo a therapeutica, fazendo as crenças debandar, e no crepusculo da agonia alongando sobre os corpos, azas de morcego, farpadas e verdes, faminto das almas côr de luar. Mas na sua monotonia implacavel, o velho ia para deante, verboso e contente, insistindo no caso, biographando uns e outros, referindo as rações de carne assada, as fomes tradicionaes da dieta, os grandes desalentos de quando tombava a noite na enfermaria enorme, á hora em que os accessos vem accelerados, o rhythmo das respirações se turba, uma afflição convulsa esmaga peitos e coragens, e ás janellas fumando, os lividos enfermeiros bocejam de tedio e mau humor. Cabisbaixo então, o velho pensando na sua velha e o marçano em sua mãi, sorriam um para o outro de tristes, com um desejo no bello sol dos prados, e nos tectos humildes sob que tinham dormido n’outro tempo. Quando a narrativa chegou á cama em que o de Chellas estava assentado, o marçano pôz a vista pela primeira vez no vulto do doente seu visinho, atufado em roupas até ás orelhas, e immovel como se fôra morto. Tinha entrado com facadas no lado esquerdo, ia em mez e meio, conforme o velho contou. Poucas palavras, olhos sempre fechados—quer vêr?
E destapando a cara do intractavel companheiro, o de Chellas gritou-lhe: