—Eh camarada, dê os bons dias á gente!...
O doente virou dolorosamente a cara para o lado d’onde partia a voz. O movimento que fez, instinctivo quasi, arrancou-lhe das profundezas do peito um gemido extincto, e o marçano pôde vêr entre a dobra do lençol ensanguentado e o algodão do barrete de dormir, uma face chupada e rôxa, cujo olho parecia dormir sob a palpebra cahida, pelle de elephante com barba rara, enormes orelhas que despegadas do craneo davam a esse todo, a expressão nocturna e lugubre de um mocho derreado. Deu um repellão na cama, uma especie de grito brusco que poz em alarme a população proxima.
—Alguma dôr? quiz saber o de Chellas.
—Nada! nada!—e confuso, tremulo de susto, o marçano tinha desejos de reatar palestra, readquirir sangue frio, rir mesmo do que o outro contava, mas voltavam-lhe ideias negras, parecia-lhe aquillo um carcere, os homens sêres ferozes devorando-se em eternas luctas e eternas intrigas, toda a cidade um covil, e a enfermaria um monturo. E aproximando reminiscencias, comparando feições, dizia para comsigo ter já visto aquella face terrosa. Onde? Fosse lá saber! Mas ficára inquieto, peor, uma coisa parecia estrangulal-o, roubar-lhe o socego e o calor do corpo. Olhava á roda, vazio de consciencia, opprimido, as mãos errantes nas roupas.
Fazia magnifico sol n’essa manhã, quinta-feira de Ascensão por signal, e era de vêr como os convalescentes, abandonando jornaes e palestras, vinham apinhar-se por traz dos vidros da enfermaria, alongando os olhos pela paizagem fronteira. Avistava-se já no arrabalde, um pouco das montanhas da Graça e do Monte, e além, no pendor do valle que se estende contra a Penha, searas a espigar, picadas de vivos pontos de flôres.
Como era dia da espiga, pelas veredas que as terras demarcavam, os grupos da gente operaria com exercitos de pequenada, iam entre as searas, serpenteando com fatos de domingo, para colher o ramilhete de papoilas e espigas, que no dizer da lenda lhes traria ao ninho, felicidades e paz. Logo de manhã, o paralytico que na velha cadeira de rodas corria tudo, pedira ao de Chellas para lhe deslocar o vehiculo contra a janella, saudoso dos tempos em que, como aquella gentana toda, espairecia os ocios do dia santo, blusa nova, madama ao lado, e o fedelho trotando no bengalão do pae. Tambem esse foi apontado pelo de Chellas ao marçano.
O rapaz olhou-o de longe, viu uma cara grave expressando saudades de venturas mortas, e estupida indifferença pelo que em volta vivia.
Tempos! Tempos! E o velho abanava a cabeça todo grave, de olhos no chão.
—Já tem a companheira no cemiterio, contava. O rapaz fez-se-lhe homem, e foi degredado por navalhadas. Ninguem herdaria o nome do ferreiro honrado, nem a ferramenta do officio, que por cincoenta annos, as mãos d’elle haviam puído na bella coragem de um labor sem treguas. Tudo n’esse hospital era pois triste, cheirando a tumba—miserias, desgraças, quedas!... Tremia a alma com frio. E tambem pensativo, o velho de Chellas, erguia o olhar sobre a paizagem fronteira, viva de mundo e penetrada dos fremitos da aura e do sol, que manso, mansinho, iam fazendo ondular os colmos das searas e as folhitas das oliveiras. Áquella hora, tudo abriria no seu pobre logarejo, corollas de risos matinaes, simples e sinceros como a alma dos prados verdes, exhalada no cantico dos passaros e na bruma cerula do entardecer. Iria chamando á festa o sino da egreja; gente de casaes aos ranchos, entrava talvez o velho portal de ogiva, gothico da primeira dynastia, e no arraial flautins e bombo, animariam o bailarico de cochopas com moleiros, espessos como bezerros. D’uma banda o rio espelhado, e da outra collinas verdes picadas de pomares em flôr, altas noras ronceiras, e moinhos de vento em rodopio, enquadrariam a paizagem n’uma suavidade casta, cheia de fecundos sonhos, nupcias, beijos, atomos de sol e borboletas sacudindo o iris das suas azas turbulentas. Cada corolla seria um ninho, e uma fuchsia cada insecto bicôr. Nas colmeias das hortas, abelhas iriam fazendo pacientemente, cathedraes de favo, gothicas e fulvas, com o perfume de todas as flôres e a doçura de todas as nectareas. Um deus coroado de folhas, crinas ao vento e riso de auroras, baccho pelos cachos do carcaz, meio homem, meio monstro, esculpido nas troncagens das cepas, entre tufos de parras e cannaviaes, ou nos farrapos de nevoa, á hora em que espadana o sol das cordilheiras, espargiria sobre a natureza ebria, a munificencia das suas graças sem par. E na ponta da aldeia, á porta da casinhola terrea, a velhota de roca hirta no cós das saias, faria bailar o fuso nos dedos, longe do fuso e da roca porém, tendo o pensamento no seu velho do hospital, e chorando por isso mesmo. Ah, pae do ceu! Que seria das vaccas, das leiras de repolho, do batatal e da jumenta parida!... E campo fóra, apanhando espigas, chapeu largo e cantiga prompta, elle via a gentana trepando, serpenteando, correndo, e ficava-se amuado de estar preso, de se vêr doente, espectador de tantas miserias e de tantas dôres!
Assim estiveram calados, deu uma hora no cuco da enfermaria, e o marçano attento no das facadas, via-lhe a immobilidade do corpo afogado em roupa até aos cabellos, e o quebramento da postura, sempre a mesma, vazia e morta. Fazia-lhe um medo algido aquelle homem tão quieto, a que nenhum remedio arrancava melhoras, sempre na mesma, sempre na mesma, não dando palavra, não respondendo ao medico, nem ao menos deixando vêr uma pagina sequer do que fazia por fóra.