—E como vae elle? perguntou o marçano, indicando ao de Chellas o vulto, de soslaio.
A resposta do velho foi:
—Diz que marcha.—E tão laconicamente dita, a sentença de morte deu allivio ao pequeno, que muito baixo para dentro de si, ousou dizer—ainda bem!—como se o mundo lhe ficasse aberto, por se fechar mais aquella cova.
Permittia-se áquella hora entrada na enfermaria, e em quanto com esmeros postiços, os moços alisavam a roupa aos protegidos, refazendo as dobras, achegando á cama bancas de cabeceira, e pondo a geito os escarradores,—pessoas da rua, acanhadas, passeando os olhos de cama em cama, á procura do seu doente, iam entrando receosas, as mulheres sobretudo, de tanto homem estiraçado. Os que na vida ainda tinham pessoa chegada, velhos paes ou maridos, irmãos, amigos, companheiros de predio ou de officina, levavam os olhos para o guarda-vento, á espera d’um rosto conhecido, que lhes viesse sorrir e fallar. O entrevado deixára-se ficar na eterna attitude de dois annos, indifferente ao que ia, n’um egoismo imbecil em que fuzilava rancor. E da janella mettia dó tambem, a face do paralytico, pintando uma d’essas tristezas planturosas e mudas, que até fazem pena ás creanças, e de que a gente toda a vida se lembra. Nenhum d’elles tinha quem lhe quizesse já, e as affeições dispensadas aos outros, mulheres revendo maridos, filhos beijando os paes, irmãos beijando irmãos, e amigos dizendo o que ia por fóra, escandalos de rua, casos de officina, projectos e desastres, faziam na alma dos dois como um estridor de bofetada, insulto que se não perdôa, e traz odio como reacção. Mas de repente, atraz do velho de Chellas, alguma voz atabalhoada disse:—Eh, marido!...
Voltou-se elle logo áquelle timbre conhecido, braços abertos, querendo erguer-se d’onde estava sentado e sem poder. Era a sua velha saloia, de botas crúas e lenço amarello.
—Eh, companheira!...—Largando o chalito de baetilha, a pobre tinha-lhe cahido em cheio no peito, chorando sem fallar, e toda alegre por vêl-o já de pé.
Riam em volta d’essas ternuras de setenta annos, vivas e sãs, que tinham, tão simples, um perfume casto de bodas de oiro, ao tempo em que um moço, apontando o leito do marçano, disse para um senhor—é aqui! E inesperadamente, o pobre rapaz deu de cara com o Pinto, solemne no frack preto dos dias santos, suiça rasa e cabello á escovinha, o alto ventre liberal, d’onde medalhão e corrente escorriam, n’um pus de riqueza gorda e chinfrim. O merceeiro adeantou-se, face austera de patrão, chapeu alto pendente, e mantinha de pavões bordados. Entrou logo n’uma lenga-lenga nasal e rapida, sem deixar fallar, onde pesava a nota hostil da sua posição superior. Como estás? Como não estás?
Que lhe tinham botado causticos—quantos, mesmo assim? E proseguiu—se purgavam? Era essencial, para puxar os humores.
Deixa doer quem doe! Elle bem lhe recommendára na loja, tivesse resguardos. Advertir um homem casmurros, é malhar n’um ferro frio. E quasi o mandava ficar bom no dia seguinte, impacientado, embirrativo, pela falta que fazia na loja.