Reprehendia-o como de costume, pela fraqueza physica, a miseria dos ossitos cambados, a carne molle que cedia prostrada ao mais leve esforço, caniculas de braços, peito para dentro, amarellidões de uma lesma. E a sua carne triumphante e rubra, que a fartura da mesa regalava e mantinha, cuspia desprezos aridos n’essa miseria de fedelho chupado, que vergava em cobardias de vime. Servia lá, nem o diabo! E vendo-lhe lagrimas, temendo que tivessem reparado, fazia a voz alta, amansando a expressão do dizer.

—Cura-se, deixa. Com descanso e tempo, inda vens a dar ahi um granadeiro.—E queria rir; era hediondo a rir! Por fim tirou a bolsa, ficou-se a olhar á volta para que vissem, mexia nas meias corôas novas, fazendo-as tenir, e uma a uma, deixou-lhe cahir cinco na roupa, que telintaram chamando as attenções de toda a casa, pessoal e doentes. Os que ficavam perto, ergueram um rumor de admiração sympathica—que rico patrão, a bella pessoa, feliz de quem servia homens assim! E pediam de mão estendida, o ar exhausto, para tabaco. Ao tenir da moeda, o das facadas abrira olho, immovel nas roupas, e pelo canto via attentamente o rapaz entretido nas meias corôas generosas, e o Pinto a distribuir os meudos que tinha, fazendo alargar o côro de bençãos, oleoso de orgulho, o medalhão oscillando no seu ventre burguez. O episodio fizera esquecer o par de Chellas, velho ao pé da velha, isolados dos mais, e referindo negocios de casa, esperanças no anno e o pequeno lucro das vaccas. Tinham sido abençoadas as aguas de abril, a sementeira enchia olho, nascera um burrico, e na venda do leite, o rapazote tinha dias de seis tostões e mais. O velho impacientado, mexia a perna doente, como a infiltrar-lhe vigor.

—Esta maldita que não enrija! dizia. Esta negregada sempre na mesma!—E procurava quedar-se de pé firme, por minutos, até que forçado a sentar-se rogava pragas, zangado da edade, da fraqueza e da demora.

—Paciencia, volvia a velha. É já por pouco!

E arregaçando o saiote azul, de estamparia pobre, tirou da enorme algibeira de retalhos um queijo fresco, as primeiras cerejas do hortejo, quatro ricas laranjas, e o pé de meia do dinheiro, para se abrir c’os enfermeiros em tendo alta. Um no outro, repousavam olhos tranquillos, na tocante amizade d’essa ligação tão longa, que a velhice despira já de erupções e arrulhos. E fallavam de tudo ao mesmo tempo, para aproveitar bem a visita—quando elle sahisse, não era verdade?... e as dôres que tinha soffrido, passeios ao sol, na cerca, por ordem do doutor, as chuvas, e das manhãs que vinham brumosas ainda, e da vida de cada qual na enfermaria... Interessada, a velha ria para os lados, a um e a outro, feliz por dar a sua piedade de mulher ao infortunio dos tristes, que sobre enfermos eram ainda por cima desamparados de affeições. Por descuido ficára entreaberto o guarda-vento, e como estivessem voltados para lá, viram passar no corredor um padre, de barrete e estola negra, e atraz, pouco depois, o sacrista que levava uma grande lanterna accesa e cruz alçada.

Encararam-se brancos, adivinhando a mesma coisa funebre. O queixo da velha tremia, e na crise nervosa que viera, os seus braços apertavam a cinta do velho, como a furtal-o a perigos. Era a Uncção, a alguem que partia d’este mundo.

—Adeus, disse ella tristemente.

Tornou o marido—adeus! E a olhar se ficou, bestificado nos aspectos sepulcraes da catacumba, a reconstruir aos pedaços, scena por scena e grito por grito, o lugubre drama da vida hospitalar, que desgrenhadas visões alumiavam, a labaredas de horror. Essa passagem do padre no corredor, lançára um calafrio nos catres—parecia menos triste o paralytico, e da sua cama o entrevado ria alto, com um gargalhar imbecil que era diabolico, exprimindo deleites de uma vingança, sinistra de vêr. Desentoada, sem modulações, como sahindo de uma larynge sem cordas, a sua voz cascalhava a espaços, acima do borborinho geral.

—Lá vae padre, lá vae padre! Carne fresca para hoje!...