Já a saloia ia á porta, dizendo ao marido adeus com a sua mão nodosa, muitas vezes, e ao descer parou, esteve a olhar saudosamente ainda, e foi-se. O velho enternecido, ria já tranquillo, recolhendo de sobre a cama do esfaqueado, os presentes da companheira. Ia repartir a sua fruta mal-o queijo, com o amiguito de Santa Comba. Laranjas quatro; eram seis molhitos de cerejas; e o rico queijo sem sal, muito branco, vinha embrulhado n’uma folha de couve. Ia mettendo tudo nos grandes bolsos do capotão de briche. O ultimo molhito de cerejas era magnifico e rubro, inda humido das parras em que viera envolto; e de braço erguido, cerejas contra a luz, o de Chellas mirava-as muito—eram da cerejeira de ao pé do tanque, não se enganava. Os olhos riam-lhe de felicidade para os fructos, como para queridos filhos. Plantára elle a boa arvore, ha dez annos, n’um dia de orago, estando a mulher de parto. Tão graudas e vermelhas!... Trincava-as uma por uma, mascando vagarosamente, de olho pisco. De estalo, meu homem! Cuspia os caroços com orgulho, saboreando a sua fructa, que viera da sua horta, colhida pelo seu rapaz e trazida pela sua mulher! N’aquella embriaguez esquecera-se do pé da meia, em que o dinheiro vinha. Estendeu a mão para a cama, machinalmente, á procura. O pé de meia! O pé de meia! E não dando por elle, affirmava-se, mas não o via, o rico pé de meia das economias... Baixou-se custosamente então, a vêr debaixo da cama, e aos lados da banquinha, nas dobras da coberta, em toda a parte—nada! Os seus olhos erravam por uma banda e por outra, exprimindo um pasmo afflictivo agora, e o ar oppresso de quem quer gritar e não póde. Fez para o marçano:
—Vossê viu por aqui, o pé de meia da companheira?
O outro fez não, com a cabeça. Não tinha visto! Que era? O pé de meia da companheira? Por seu lado, o velho reflectia, olhando á roda. Ninguem podia ter-lh’o assim furtado, não se salvasse! Entre a cama do esfaqueado e as mais, abriam amplos intervallos—da direita era a janella, da esquerda o canto. E o amigo das facadas nem se movera!... Diabo! Surpreso, o marçano encarava-o de face, á espera, sem saber.
—É que o levou por engano, tornou o velho afinal.
—Levou quem?
—A companheira, homem! Aquillo é que se esqueceu, a cabecinha de vento, e guardou o pé de meia. Pega cerejas. Deixal-a!
Pelo cahir da tarde, tinha-lhe voltado abruptamente o accesso de febre, trazendo comsigo o desvario. Jactitante e curta, a respiração vinha sifflante na guela, cornea de seccura. Acrescia a difficuldade de estar deitado, parecendo que uma gargalheira de bronze o afogava, pondo-lhe zumbidos no pavilhão, e deslocando-lhe as coisas aos circulos por deante dos olhos, n’uma walsa lenta, em que os contornos e as côres, se apagavam e fundiam. A espaços, despertando dos lethargos profundos em que amodorrava horas e horas, ouvia o entrevado prégando mortes, que já nas sombras da egreja velha, o riso das corujas tinha predicto noites e noites. Com seculos de intervallo batiam horas no cuco da enfermaria, alargando n’uma tortura livida, sem fim, as dôres e as insomnias, e moendo os corpos pela vida morta em que os agitava. Por vezes o enfermeiro de quarto, de varino, capuz derrubado e lanterna á cinta, sahia ao guarda-vento para gritar—Dez horas! Duas horas! Seis horas!—Seguia-se o barulho de passadas somnolentas, vozes que trocavam ordens, pontos vermelhos de cigarro scintillando na treva do corredor—eram os moços que se rendiam nos quartos, gente que batia custosamente o lagedo, e outros levando em padiolas cobertas de negro, quentes ainda, para o deposito, os miseraveis que vinham de expirar nas enfermarias. Outra noite então começava, eterna, sem guarida, sob a calma densa do ambito, que a bassa luz dos lampeões enchia de oscillações mortiças, que docemente, em franjas vagas, vinham quebrar-se na sombra tremula dos oito pilares da abobada.
Aqui e além, dois ou tres sonhavam co’a vida livre dos seus mesteres, nas ruas, nos campos, nas fabricas e no lar, recompondo as scenas quotidianas, dialogos de atelier, as pequenas birras de familia—e d’alli para cima entrava um fervor afflictivo, subindo, descendo, intercalado de haustos fundos, de suspiros oppressos, spasmos de asphyxia momentanea, cansaços, impaciencias, raivas—depois era ainda a série dos que não podiam dormir, e para todos os lados rolavam n’um esbrazeamento de sêde, deitando os braços de fóra, pedindo agua, n’uma irritabilidade de sentidos que os punha fulos ao menor ruido, ao attrito mais debil, ao leve ondular de uma luz. E as respirações fundidas com esses movimentos desordenados davam um concerto informe, alguma coisa como fervores de cratera activa, ralos que em espira fugiam do rumor geral para morrer em silvo, n’uma especie de sopro apagado, por vezes n’um ronco até.
—Carne fresca para esta noite! Carne para esta noite!—Que as maganas estão-se a rir...
Uivo de besta-fera que alarmava de lugubre, a deshoras, zangando uns, mortificando outros. Sómente desprezando a sucia, indifferente aos gritos e aos terrores, o enfermeiro estava na cadeira de braços para o quarto da madrugada, Rocambole na mesa, lanterna ao lado, cachimbo acceso para matar o somno, e certa idéa gulosa em dois dedos de carne, feminina e sadia.