A sua sensação dominante, era um odio da vida negra eivada de miserias, em que amortecem affectos e bons impulsos, todas as lealdades da estima, abnegações do sangue, e os fluidos de uma sympathia que ás vezes, instantaneamente, se contrahe. Porque o tirocinio da profissão deserta de risos, constantemente em face do estertor, da allucinação e do soffrimento, o eterno espectaculo de corpos doentes, pondo a nú as podridões do temperamento e das faculdades, a crueza dos instinctos e os urros da cubiça e do odio, aluira-lhe o ideal de generosidade, estancando as fontes do bem, da pacienca e do amparo, quanto é inherente á intelligencia e se bebe de salutar na educação.

Oh, a Julia, que sobrolho promettedor!...

E rolava todo amoroso, n’um espreguiçamento lubrico, cabeça para traz, na molleza somnolenta que faz para assim dizer, atmosphera ao desejo. Bocca aberta, cahidos os braços, cachimbo em ala esburacando o capote, ficou a resonar espapaçado como um odre, e via-se o bigode cahido nas commissuras, pondo-lhe na cara o laivo despotico de um mandarim feroz.

N’um sobresalto então, o marçano viu uma fórma núa que se debruçava para elle, de olhos estourados, os braços em arco pintados de figuras azues, ancoras, letras, cruzes, datas, e de mãos tremulas tacteava as roupas, por baixo do travesseiro, á procura. De medo, nem pio deu. Olhava a estranha cabeça, muito chata de fronte e alongada ao alto, pequenina, afocinhada, de orelhas salientes. Apenas se mexeu, a fórma recuára sem ruido, como se escorregasse, e as suas mãos buscavam sempre, com incisão subtil e fina, pelos colchões, abaixo dos lençoes, sob o travesseiro. Que é? Quem está? Que quer? A adunca fórma vinha com precauções minuciosas, parecia crescer endireitando subitamente o tronco de livida magreza, em que saltavam costellas, e a enorme ligadura passava cingindo-a desde os sovacos até aos rins, com discos de sangue secco. Trespassado de terror, o pequeno fazia tudo para gritar, em lucta com o pesadêlo das mais noites—primogenito das grandes febres, em que mesmo acordado, tresvairava. E a catalepsia era implacavel, completa, prendia-lhe os braços, prendia-lhe as pernas, gelava-lhe a lingua, estrangulava-o pela garganta. Via essa aranha de nodosos membros, amarellos, terrosos, cheios de lanugem parda, cujos ossos davam estalos, indo e vindo, palpando o leito dos pés á cabeceira, escorregando-lhe as mãos ao longo do corpo, de olhos fixos, carcomido, atroz, cheirando a raposo e a mattagal. E não partia, a gargalheira de aço que o estrangulava!...

Transparente da extraordinaria magreza, o larvado sêr dir-se-hia movido por uma idéa fixa, procurando aqui e além, palpando tudo sem ruido. De cada vez que as suas mãos tocavam a carne do rapaz, sentia elle uma frialdade de reptil, pelle escamosa e aspera, que ao contacto dava irritações doridas. Cada articulação lhe fazia uma massa redonda e enorme, na linha torta dos membros.

Era todo anguloso e torcido, inutilisado por uma degenerescencia trahida nos mais simples pormenores organicos, desde os musculos que mal avultavam comidos de cachexia, até ás phalanges dos dedos, filiformes, agitadiças, tendo o ar de vermes.

Afinal o estado fez crise, pela condensação de uma grande força nervosa—e o pequeno deu um berro roufenho e brusco, muito curto, mas ao erguer-se sentiu a guela oppressa pela pressão de uns dedos crispados. A aranha cahira-lhe em cheio sobre o peito, tinha-se-lhe aferrado ás guelas, de pupilla accesa, calada por cima d’elle, e toda inteiriçada na sua magreza funambulesca. O pequeno debatia-se em vão; mas tinha os braços livres e atirava-lhe murros ao focinho, dando pontapés sob as roupas, e furtando o corpo a cada solavanco da guerreia. Luctaram dois segundos assim, n’um silencio lugubre em que os halitos sifflavam; e o espectro mordia nas mãos do garoto, aos pulos sobre a cama, furioso, tentando arrancar-lhe o quer que fosse, mão nas guelas, e a outra mão aggredindo sem descanso. Afinal conseguiu tirar-lhe o que era, pôz um pé no sobrado, deixára-lhe as guelas livres. A lucta porém não cessou, era o marçano quem atacava agora, aos gritos, agarrado ao pescoço do espectro. Tinham acordado em volta, no entanto, chamavam por gente, estremunhados, sem saber o que havia. De braços tisicos, o rapaz retinha a fórma núa, sem largar, arquejando, implorando—dê-me isso! dê-me isso! Mas o disforme sêr parecia de pedra, olhando de pé a creança que implorava. Tinha já ensopada em sangue a ligadura, e dobrado para a frente queria avançar um passo, dizer o quer que fosse, acenar com as mãos talvez; mas ao tempo corriam, e o enfermeiro atirou-lhe um empurrão—seu malandro! seu assassino!

Tinha-se reconhecido o das facadas, o que nunca mexia do seu lugar: e como elle vinha para aggredir, o enfermeiro injuriando-o, n’um chuveiro de infamias vertiginosas—que viera do Limoeiro para alli, era um degredado por toda a vida, um assassino, um pulha e um ladrão!—descarregou-lhe a bofetada em cheio, e com uma cara hedionda viu-o cahir desamparado, todo um, vomitando sangue negro, que cheirava a pôdre. Então disse alto, contra o guarda-vento:

—Eh, carreguem o canalha!

Os moços agarraram n’elle, um pelos pés, outro pela cabeça, e a custo ergueram-no do chão. Ensopada, a enorme ligadura não podendo reter o sangue das facadas abertas no esforço de luctar, pelos intersticios deixava-o correr em fio, muito escuro, crepitante, espumoso, nas tabuas, e pelas roupas, alagando tudo. Esse corpo resequido, sob cuja pelle tendões sahiam retesados como varas, jogava solavancos para toda a banda, com os braços, com as pernas, dando urros de touro agonisante. A enfermaria estava agora em balburdia, e todos fallavam n’um fundo de pavor, esbracejando, commentando o caso, fallando ao mesmo tempo.