Os moços vinham de atirar sobre a cama o rebelde, que a morte estorcia em repellões profundos. Viram-se essas pernas flectidas como para um salto, erguerem as rotulas juntas, contra a bocca torcida, d’onde um sangue denso golfava ao de manso. E dobrado pela cinta, todo aquelle sêr mexia, rolava, uivando, procurando apoio nos hombros, nos cotovêlos, nas nadegas, alçando a cabeça, cahindo outra vez, e erguendo-se ainda para luctar de novo, na ancia do ultimo arranco. Tinham chamado o interno de serviço, que veio ao pé da cama, e seccamente, chupando o cigarro disse—prompto!—e abalou de mãos nos bolsos. O fervor da respiração que subira mal viera a agonia, cahia lento, com o ruido d’um comboio que chega, e a mascara ficára rigida e baça, listrada de um bistre singular, ao ultimo rolar convulso dos olhos. Coincidia com o aniquilamento da face, a geral prostração dos membros—as pernas abatiam-se n’uma rigidez de pedra, mettera-se-lhe o peito para dentro como sorvido, e pendida do leito, a mão que estava fechada relaxou-se, deixando cahir no sobrado sonoramente, umas após outras, as cinco meias corôas do marçano, que condensando afinal as suas lembranças, acabava de reconhecer no morto, o ladrão do armazem.


O HOMEM DA RABECA

A casa para onde me mudei nada tinha de confortavel e resguardada. Sómente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.

Devia já ser velha; os tectos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinellos arrastando. Pelos buracos do roda-pé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava—rompia alegremente o sol, como um companheiro folgasão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette de cabecinhas graciosas, em que parece viver todo um mundo de pequenos segredos de boudoir. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corollas roseas n’um candido aroma de beijos, e em amphitheatro, alargando-se da Baixa ao cimo das collinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos ultimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janellas, sobre que os tectos cahiam em pyramides alongadas, e de que as chaminés furavam aggressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recem-nascida.

A primeira coisa que pude notar na visinhança, foi que não havia uma cara bonita. Em baixo na loja do predio fronteiro, a mulher do logar, suja e gasta, era repellente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado, mostrando a carne trigueira e chuchada dos seios. No primeiro andar, engommadeiras com cara de homem, cabelludas e amarellas, vinham raro á janella para lançar olhares obliquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra—ao lado um veterano eternamente á janella, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; creanças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janella para janella sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos—e o mesmo padeiro servia as familias, demorando-se de palestra pelas escadas.

Ás dez horas, em quanto fazia o almoço, sentia um rumor de passos cansados, e uma voz dizer de quando em quando—espera, homem, vae devagarinho. Alguma vez dás comigo pela escada abaixo!