Era o visinho do lado, o cego da rabeca, descendo com o pequeno. Iam para o giro do dia, em quanto a velhota ficava enrolada em cobertores e meio paralytica das pernas. Succedia topar com elles pelas ruas. O pae era velho, typo commum dos cegos famintos, com a saccola pendente, rabeca a tiracollo por um cordão verde e sujo, o chapeu amachucado, véstia de saragoça. O habito de cantar para as janellas havia-o deitado um pouco para traz, os olhos escancarados tinham uma serenidade vitrea, a bocca era um nada atormentada aos cantos...

Em certos dias corriam a cidade inteira, beccos lobregos e ruas humidas dos antigos bairros, onde parece errar ainda agora uma legenda de facadas e a bulha de altercações vadias.

Á noite, internavam-se pelos baixos cafés de operarios, Alfama, Mouraria e Bairro Alto; e alli amachucados a um canto, em quanto gemia a rabeca, o rapaz erguendo a voz dizia as desgraças dos degredados e as lamentações do Vimioso, terminando por estender o chapeu á esmola dos que bebiam. Eram os unicos tristes da rua aquelles expulsos da fortuna, a velha que ninguem via, o cego e o rapaz macilentos.

Voltavam tarde, extenuados.

—Vá homem, vá, parece que não tens força nas pernas! dizia o cego ao pequeno.

Succedia, por vezes, Miguel recordar que não havia petroleo em casa, que as provisões estavam por pagar no João tendeiro, e não seria fiado real na manhã seguinte se não fosse de logo paga a pequena despeza. Detinham-se então na escada ou á bocca de alguma loja. O pequeno estendia a mão tenra e roxa, e n’ella o pae ia deixando cahir vagarosamente e com pena, uma a uma, n’um tlin-tlin methodico, as pobres moedas recolhidas no trajecto do dia.

Ás vezes era pouco, tres, quatro vintens.

—Bemdicto seja Nosso Senhor! suspirava o cego, e passavam sem luz essa noite.

Era nos domingos mais prospera a esmola e triplicava a receita.

Dizia o cego: