—Sempre é dia em que Deus Nosso Senhor descansou.

Por vezes até, uma pobre senhora, compassiva ante a velhice d’aquelle homem, sem queixa mordendo as miserias do desamparo, offerecia-lhe um pouco de fato, restos de refeição. Era um prazer, que se poupava o jantar d’aquelle dia. E deante do pequeno Miguel, cujos olhos vagos e interiores pareciam absortos n’uma contemplação lunatica, o cego desenrolava carinhos doces e meigas insistencias para que trincasse os melhores bocados, perguntas repetidas sobre se tinha frio, dôres de cabeça, os pés molhados... Rareavam de inverno as esmolas; mal se podia andar na rua, que a lama cuspida dos trens enchia tudo, e eram inclementes e eternas as gotteiras dos telhados pingando sobre quem passava sem cobertura. Em tempos d’aquelles nem os garotos da rua queriam musica—as creanças dos varios andares, as melhores freguezas das pobres valsas e cantigas que o velho executava na rabeca não podiam chegar á janella; se pediam esmola, respondiam logo—Tenha paciencia!

Além d’isso um horror que a policia os fisgasse em flagrante mendicidade... que seria depois, da velhota? O asylo glacial em que as cabeças estão cheias de parasitas e os estomagos vazios de alimento, seguir-se-hia enquadrado na pressão soberba e fria dos fiscaes e administradores; separal-os-hiam brutamente, o velho para a caserna com outros invalidos, como elle sem valia, a creança para a Correcção, em que a lividez é patibular. N’esses amargurados dias era necessario comer a rações. D’uma vez tinham feito um pataco. E a velhota, coitada, sem remedio!...

A hora do jantar retardou-se n’aquelle dia. Quando era noite, o velho fallou em irem comer alguma coisa. Queixou-se de não ter vontade, e deu ao Miguel o dinheiro para que fosse comprar pão. A creança olhou-o com uma especie de surpreza ingenua; á luz do gaz d’uma loja viu lagrimas nos cilios tremulos do pae, cuja face cavada tinha uma côr terrena de angustia. E sem saber porque poz-se a soluçar á esquina, longe d’elle, para que não fosse ouvido. Ah! era bem negra aquella vida, era!


MATER DOLOROSA

A noite fôra surprehender o rebanho nos cabeços de Montalão, avançadas da cordilheira adusta, que fechando valle pelo norte, vinham morrer pouco a pouco em outeiros já cultivados, e mais raros á medida que em volume e redondeza decresciam. Ia um d’esses verões alemtejanos, calcinantes e sezonaticos, em que o sol arde desde o nascente ao occaso, não bole folha a cicio imperceptivel, e todos os leitos de ribeiras sugadas e corcovas de caminhos, faiscam sob a luz, em reverberações implacaveis; tempo em que se trabalha de noite, as perdizes fazem ninho, figueiras e vinhas dão fructos, e nos cantos das hortas, os ouriços se rebolam por baixo de abrunheiros e damascos, a espetarem nas puas da sua armadura a provisão de uns poucos de dias. Outeiros e courellas iam já ceifados; viam-se restolhos amarellecidos rompendo da terra esboroenta, como barbugens brancas em face de velho. De longe em longe, no paiz cerealifero, uma ou outra oliveira derreada, cortava um gesto afflicto na crueldade do céo. E para a banda, em esquadrão cerrado, as azinheiras desfilavam em negrumes guerreiros e formidaveis, cobrindo o solo por leguas e abalando em silencio, como para alguma surpreza. Durante o dia inteiro o rebanho percorrera a pastagem comida e recomida de Montalão, tendo acampado de manhã nas planuras e faldas da cordilheira, subindo lento por corregos e ladeiras, e topando as cumiadas por fim. Com similhantes calmas, impossivel de dormir nos curraes; morriam ovelhas de asphyxia e morrinha, pelas inclemencias do clima e putrilagens da agua—e a penuria dos pastos trazia os gados magricellas, atrazava as crias e consumia os lavradores. Desiderio Jacintho, pastor do rebanho ia em bons annos, nunca tinha visto mortandade assim—nem que fosse coisa de Deus, para castigo dos nossos peccados!