Não era o amo só que soffria os azares da calmaceira; que se as perdas d’elle eram maiores, mais alentados tambem os lucros vinham, havendo occasiões de lhe trazer pr’o monte soberanos aos saccos, das feiras onde o mandavam vender cabeças.
Mas o pastor soffria por cima de todos—das onze ovelhas que no rebanho tinha de seu, tres eram já mortas de gafeira e as outras Deus sabe!
Ora essa noite de restolho nos outeiros tinha sido mal dormida por elle, e quasi levada no calculo dos mezes de trabalho, que havia de cumprir para rehaver o triste dinheiro empregado nas suas ovelhas mortas. A um occaso de extraordinario escarlate, intenso, gradual e enorme, rosando arestas de fragas com fugitividades de ribalta, fórmas nuas de troncos, eremiterios e clareiras, succedera uma reviviscencia de rumores, desde a manhã interrompida—vôos de rolas e pombos, gritos de melros, codornizes, papa-figos, e o gri-gri dos melharucos, vivo e musical na altura, predizendo a aura da tarde e pelo canto espaçado antecipando as Ave-Marias rusticas dos campanarios. Vagarosamente, os cimos escureceram. Foram-se as arvores fundindo em penumbras errantes, á medida que se tornava plumbea e baça a calote incendida do ceu; e por fim, tambem o ultimo riso da luz se foi, já serenamente dormia o campo, fatigado do dia torrido e a espaços resonando no borborinho doce da folhagem. O rebanho annunciára gradualmente esta transmutação de horisontes e emmurchecer de tintas, pelos tons e duração dos balidos.
A cada vez que esbotava nas nuvens alguma d’essas glorias ephemeras côr de bronze tonkin, esboçadas de acaso como em fins de tela impressionista, deixando filtrar no erradio da perspectiva lentamente, uns filamentos mais noctivagos de sombra, sahia d’essas gargantas um côro funebre modulado em tremulos de pranto, absorvencias de elegia, rythmos de ballada, e todo convulso ás vezes na afflicção dos mudos, que ao expirar do amigo ou do irmão, querem blasphemar e têem a lingua impotente! Esse côro dizia a tristeza de captivos, longe da patria, erguendo braços supplices, entre vagalhões de sombra tragica e membros flagelladores de espectros. E ás vezes de mansinho, como se fosse em segredo, fazia palavras articuladas de queixa, e ia-se apagando, apagando... Correndo a vista, poder-se-hia contar por corpos, esse exercito armado de chifres e todo ruidoso dos chocalhos. Iam na frente os guias barbados, chibatos enormes de pello fulvo e andar solemne, cornos altos, os grandes chocalhos badalando. E de pescoço erguido, um ar mephistophelico de barbas, toda a lanugem fluctuante no ventre, esses grandes bodes corriam na pastagem adeante das mais cabeças, farejando, retouçando, trepando pelos troncos baixos, subindo aos penedos e fazendo para assim dizer no seu giro, o quadro graphico do acampamento a occupar. Após seguia a grande massa das ovelhas, carneiros e cabritas, toda a pacifica e fecunda legião das femeas e procreadores do rebanho, de cabeças rasteiras, a lã negra, encarriçada e fofa, e a cornadura transversalmente estriada... Tinha já soffrido tosquia a maior parte; de fórma que sob a pelle vincada de tesouradas, os ossos de cada um saltavam na magreza angulosa, ao menor solavanco dos corpos. E por entre a turba furavam os pequenos mais velhos, brincalhões e vivos, cabriolando e cahindo, apoiados nas ancas das mães, ou sugando as tetas com furia de esfomeados. Muitas ovelhas, enfraquecidas de parto, seguiam devagar, parando a dar mama ás crias novas, ou cortando gramineas n’um abatimento triste. E atraz de tudo era a pequenada de meio dia, de um dia e de dois, pequeninos informes cambaleando esmagados sobre altas pernas vestidas de pellugem fina e longa, e abanando ao vento as orelhas espalmadas, sem curvatura e sem meneios. Na vanguarda então, como a luz cahia mais, os bodes erguiam o focinho parando de comer, viam de lado os ares embaciados, e as ultimas franjas de oiro das nuvens acertadas ás tiras, sobre um ceu côr de perola, palpitando nas ultimas radiações do sol. Para baixo, nas chapadas, era uma confusão sombria de laivos que se deslocavam e fundiam, tornando a espessura lobrega. E esbatiam-se as ramadas, perdida a noção das distancias; um diluvio de treva vinha dos valles lento e sem rumor, submergindo as aldeias, as florestas e as montanhas. Vendo a noite cerrada, Desiderio Jacintho poz-se a ajuntar colmos, palhoças esquecidas, fenos que estavam hirsutos á beira de uma alverca ou outra. Depois cortou ramadas nos zambujeiros que havia, esteve a cardar nos dedos nodosos o seu pedaço de isca, chapeu de borla para a nuca, a volta do cajado apoiando o sovaco, um lenço amarello enrolado na cabeça e alforges ao hombro.
Poz a isca no gume da pederneira desconforme, com o fuzil feriu fogo... Os cães percebendo, vinham mansamente para elle de olhos doces, ondulando as caudas alvadias. Desiderio Jacintho ajoelhára ao pé dos pastos em monte, que tinham por cima a lenha cortada das arvores. Metteu pacientemente a isca accesa por baixo de tudo, esteve assoprando até apparecer labareda. Restolhos fóra, o rebanho estramalhava-se a fazer cama, escolhendo para dormir os terrenos declivosos e desamparados, onde a aragem désse de chapa. E como para além do lume tudo se perdia em escuro, e a flamma da fogueira encandeava o pastor, ninguem viu uma pobre ovelha, que extraviada do rebanho conseguia alfim encontral-o, extenuada e esqueletica, trazendo de rastos com os dentes, o borreguinho parido de manhã.
No campo e de verão, rompe o dia ás tres e meia, quando a cotovia faz a primeira ascensão nos ceus, para dar do alto, aos volateis emboscados nas folhas, nas hervas seccas das barreiras, nas tocas, nos cannaviaes e nas balsas, rumor para a grande pastoral beethovnica da manhã. Accesa na pallidez do horisonte, a estrella d’alva tem fremitos de palpebra somnolenta.
Vae-se rasgando a nevoa das alturas, de envolta com exhalações silvestres dos valles—e cardumes de nuvemzinhas brancas ondulam as barbatanas de renda, por toda essa piscina cerula, que é desconforme como uma ambição de rapaz. Foi quando Desiderio Jacintho, retomando os alforges e a manta, assobiou aos rafeiros e fez partir o rebanho pela encosta da montanha. Mesmo no cabeço, alastrava-se uma clareira redonda, entre pedregulhos e restos de um moinho abandonado. E deitada n’uma attitude indifferente, cabeça no chão, o focinho coberto de mucos, a pobre ovelha viu partir as companheiras e deixou-se ficar de guarda ao cadaver do pequenino borrego, das suas entranhas nascido. Prolongou-se a manhã, acordaram os arvoredos e os passaros, passaram n’um vôo pesado, bandos de perdizes a matar a sede lá baixo, nos raros pégos da ribeira... Veio o sol, abelhas zumbindo, bandos de borboletas fulvas, gafanhotos e sardonicas nervosas, tudo o que começava o seu dia alegremente, luctando, trabalhando, cantando.
E o rebanho já longe, fazia no toque dos chocalhos plangente, uma poesia rustica, simples e penetrada de melancolias.
Quando de repente, dois corvos pousaram nos alicerces do moinho. Eram enormes esses corvos, com pennas azuladas luzindo de cerumen, crespas e afiadas como cutelos de bom aço. E impertigavam-se um para o outro, chegando os bicos n’um quasi beijo de alliança, aos saltinhos nas pedras, firmando patas, balanceando os rabos, com olhos obliquos sobre a mãi e sobre o filho. E estendendo os bicos corneos, dentados meudamente no bordo, longos e negros, quedavam-se n’uma especie de consulta, sem grasnar, sem mexer, como planeando campanha. O maior então atreveu-se a olhar de perto os dorminhocos do rebanho, e veio marchando clareira fóra contra o borreguinho morto, com sobrecenhos de inquisidor, sinistro e fero—em quanto o outro ficava á espera, todo inquieto, voejando, consultando as visinhanças, mais cobarde talvez! A ovelha nem dera rumor.