Conservava a cabeça inerte para a terra, as pernas dobrando sob o peso do corpo, orelha cahida e molle, e sem movimento a cauda, parecendo morta. Aquella postura extincta animou o carnivoro, que veio mesmo ao pé do grupo, se poz a andar deredor mansamente, assentando a pata com uma especie de precaução, geitos desdenhosos de cabeça e surdos ruidos de serra no bico poderoso. Mas nos alicerces afastados do moinho, dois corvos mais acabavam de pousar, inda maiores e mais negros.
Já o sol causticava nos saibros e vinha secco um chiar de cigarras nas arvores. Attrahidos uns pelos outros agora, os malditos abatiam-se aos bandos, depois de voejar em ellipsoides muito alto, por cima da presa. E ás duzias, as cabeças funebres surgiam por traz das rochas, armando conclaves de momento, debandando como fantoches, vindo de novo remoinhar aos saltinhos, ondulando, subindo, descendo e quebrando circuito, como n’uma dança selvagem.
O ataque parecia ordenar-se, á medida que se espessavam fileiras. Havia já um chefe, velho corvo sem cauda, ferozmente faminto e audaz, que afinal com um grande pulo, cahiu no cadaver ás bicadas. Os mais cerraram-se, apertando circulo, cingindo os dois corpos immoveis, batendo o chão compassadamente, com rythmos de marcha guerreira. E mal um d’elles grasnou não sei que ordem de batalha, grasnaram tambem os mais, n’um côro estridente e lugubre, que abria em risada, terminando em uma especie de uivo, guttural e rouco. N’esse momento, a ovelha ergueu a cabeça devagar, firmou meio corpo nas patas dianteiras, e esteve a olhar de narinas altas, sanguinolentas pela mordedura dos moscardos gangrenosos.
Aquelle movimento fez uma hesitação no exercito de grasnadores fatidicos cujo circulo se alargou, vergando em receios de castigo. Viam-se os bicos alinhados, convergindo sobre a ovelha e cria examine em ar de pontaria, e fazendo para dentro do circulo uma golilha negra de punhaes. E se ao mesmo tempo as cabeças voltavam, d’esses olhos chammejantes, inquietos e febris, fuzilava um sardonismo feroz, uma como certeza de victoria e provocações mudas, em que havia intelligencia. Quando a ovelha fitava um grupo, esse grupo immobilisava-se com attitudes marciaes, as pernas em fila, caudas em fila, e azas pendentes como abas de casaca, n’um enterro. Mas o resto convergia por detraz da mãi afflicta, de mansinho, aos encontrões, com fremitos de impaciencia já, mas preferindo cansal-a pelo cêrco, deixal-a agonisar para alli de impotencia, junto do filho coberto de moscardos verdes. E como se sentiam fortes pelo numero, longe das vistas de homem, senhores do campo e espicaçados de calma, entravam já de escaramuça, armando sortida, aos pulos no mesmo sitio, enfunando as azas como para aligeirar os corpos, e promptos ao primeiro signal. O corvo velho estava na frente, contemplando o cadaver de cabeça reflexiva, com idéas talvez na presa do leão. E muitos picavam o terreno ao acaso, como a disfarçar os intentos, em quanto a ovelha se levantava custosamente, e com o corpo mirrado, pernas oscillantes e narina afflicta, vinha cobrir os restos do seu pequeno defunto.
Chovia fogo do ceu embaciado e calmo, como d’um capacete em braza. Fumos sujos de queimadas, subiam direitos d’onde a onde; e era a hora terrivel em que a paizagem não tem sombras, nem correntes o ar, e vem scintillas cruas de todos os angulos e superficies.
O borreguito morto estava de olho esbugalhado, n’uma especie de extasi á luz, meios risos na bocca entreaberta, onde já havia larvas de insectos. E a ovelha guardava-o entre as patas, girando com a cabeça por um e outro lado, á medida que a petulancia dos corvos recrudescia. Os seus balidos frouxos, vindos do fundo do peito, tinham modulações de desespero mortal, e umas vezes imploravam graça debalde, vibrando em lagrimas de sangue, referindo que era aquelle o seu filho, contando a vida do rebanho, querendo abalar pela commoção: outras vezes perdida a esperança, eram uma imprecação á insensibilidade de Deus e do ceu, e rouquejavam de angustia. O corvo velho por fim saltou de vez, e com uma bicada gulosa arrancou um olho ao cadaver. Então os mais vieram em turbilhão, esbofeteando a mãi com as azas metallicas, grasnando de voluptuosidade na disputa de algum bocado. Com esforços desesperados, a ovelha resistia, marrando nos algozes com a sua fronte sem cornos,—e recuava, punha em rotação a anca e os membros posteriores, saltava bruscamente espicaçada, n’essa grande lucta desegual. Apenas, esses bicos todos lacerando a pelle do cordeiro, lhe desnudaram a vermelhidão da carne, não houve mais resistencia possivel, tamanho o impeto da investida! Agonisando então, por todo o corpo ferida e escorrendo sangue em borbotões, a ovelha já não sabia que fazer. Balava rijo, erguendo o focinho coberto de mucos rutilantes, perdera um olho na peleja—mas investindo sempre, a desgraçada!
Quando era já tudo impossivel, e o borrego pelos rasgões do ventre, bolsou os intestinos n’um começo de podridão, nada póde dar ideia da alegria selvagem e pantagruelico appetite, d’essa canalha sem freio. Disputavam-se os bocados de bico para bico; e os mais atrevidos alojavam-se por baixo da ovelha, no intuito de se banquetearem melhor.
N’um derradeiro balido, em que se exhalava tambem o esforço derradeiro, deixou-se a mãe cahir para cima do filho, aniquilada, resignada, sem queixa—e até á ultima convulsão defendeu o cadaver, offerecendo o triste corpo da mumia em resgate por aquelles queridos despojos. Já se não sentia ao largo o rebanho, e no silencio adusto do calvario, por todo o dia á vontade, os corvos tiveram festa.