MEPHISTOPHELES E MARGARIDA
Domingo de entrudo. Alguma chuva, lama, poucas mascaras nas ruas.
A Clara vendera poucas flores, não por falta de canceiras, que a viram onde circulava a turba, á porta da Trindade, pelas tabacarias e pasteleiros, ao Passeio Publico, na Alta, na Baixa... Pouca sorte! Não era bonita, não era gaiata, nem tinha fatos garridos; e pobre!... Era o peor, palavra.
Quem ia agora fazer caso de similhante diabo, e comprar as violetas fanadas e as tristes rosinhas murchas, dos bouquets do seu açafatinho de vimes?
Embalde baixou ella os preços, mettia o seu commercio ás ventas de quem passava, apregoou, gemeu, supplicou, tentando dizer as miserias da sua vida negra, dias sem comer, renda da casinhola a pagar, os filhos, frio, doença... Mas encolhiam os hombros. Antes de tudo, os importunados olhavam-lhe p’ra cara. E viam um estafermo amarellento e picado de variola, covas nas faces, olhos mortos, sem brincos nem meias, o lenço da cabeça amarrado adeante, um casibeque com remendos nos cotovêlos, a saia desbotada, e gasnete com essa côr de burel, carcomida e velha, que deixa adivinhar um corpo de arenque, chupado e ossoso.
E vendendo flores tão servidas como ella, inda por cima!
Um marujo que ia tocando com outros em guitarras, ferros velhos e caçarolas arrombadas, n’esse carnaval de tabernas e bairros lugubres, atirou-lhe um encontrão, dizendo:
—Vossê enrica com o estabelecimento. Oh laré!
E matulões em chinellos, cobertos de trapos, luzindo de papeis doirados, todos sujos de vermelhão, dançando ao som das castanholas n’uma alegria ignobil, gallegos, cabos de policia, vegetes de facalhão em riste e dedos immundos, ao passar por ella beliscavam-na, dizendo-lhe ao ouvido recados torpes, fufia, rainha das iscas e fandangueira de escada, convidando-a para dormir em hospedarias de má nota. Quanto a vender flores, nem uma! Um dia triste, esse domingo de carnaval. E passando pelos armazens de comida, mercearias, pastelarias e restaurantes, á hora em que accendiam o gaz, ella sentia um surdo desespero da sua penuria, ante esses rumores de gente que apressava, comprava e comia, dizendo—não póde ser!—aos que esmolavam na rua. Em todas as lojas ia um movimento de festa, sahia gente com embrulhos de doces, cabazes de provisões festivas. Através os vidros embaciados das casas de pasto, passavam silhouettes de moços servindo as mesas, ouvia-se o tinir dos talheres e das louças, vozes dizendo: