—Salta isto! salta aquillo!

As montras provocavam pela ostentação das peças frias, perús de recheio, salchichas enroladas n’um leito de salsa e rodellas de limão, pinhas de fructa afogadas em flores, os camarões, lagostas de patas hirsutas, e as cabeças de vitella crúa, escanhoadas e tenras, que fazem pensar na risonha Herodiade, mostrando em prato de oiro, a cabeça livida de João Baptista.

—Flores baratas, oh freguezes, aqui estão ricas flores, muito baratas!...

Cahiu a noite, cada qual gosava. Iam bebedos caracollando na rua. E o ceu tinha serenidades no alto, sob o frio luar de fevereiro... Clara foi para casa doente.

—Ámanhã veremos, dizia ella esperançada ainda, borrifando com agua fresca o cabazinho de ramilhetes já murchos. O filho mais novo estava em prantos no berço, grunhindo talvez de fome. Clara deu-lhe a teta, mas a creança recusou-se a pegar-lhe, sentindo o leite ruim, da febre, da caminhada, da debilidade e má alimentação.

Ás quatro horas do dia seguinte é que Gabriel, o mais velho dos garotos, appareceu em casa todo empoado, amarellento da noite perdida, e com uns ares de pandego, que deixaram a pobre mãe boquiaberta. Nem uma unica cautela vendera, das cinco com que abalára de casa, um dia antes. E a situação carregou-se!

Visinhas, não as havia alli tão perto. O antro em que viviam, dava de uma banda sobre quintalorios alagadios, emquanto da outra ia abrir n’um desvão de muralha aluida, entre cocheiras fétidas, onde a toda a hora moços esqualidos diziam maroteiras, ou repicavam fadinhos langorosos. Aquella solidão punha incommunicaveis com o resto do mundo, os farrapos e as fomes d’esses despreziveis.

Mesmo de dia, fazia noite na caverna, e gottejava do muro um pranto deleterio, que Clara nunca conseguia estancar.

Esta existencia de privação e sobresalto, subterranea, quasi proscripta, era de continuo sob a ameaça de tentações singulares, companheiras da miseria e do abandono. Mesmo estruida e esqualida, a pobre era ambicionada, espiada, accommettida. Em volta da sua toca, girava esperando o instante critico, a cambada immunda das cocheiras perto, homens sem edade, corcovados, rotos, batendo tamancos e batendo fados, n’um asco de estrume que os degenerava em ratazanas de esgoto. Essa gente cahida na ultima torpeza, serenos de noite guiando trens suspeitos, moços de estrebaria limpando o gado e as immundicias do estabulo, sabendo crimes, conhecendo os vagabundos, ladrões, assassinos e meretrizes, tinha na cara em sulcos terrosos um attestado lugubre de infamia. Dois ou tres tinham a Clara de olho, e se a viam recolher da venda, diziam-lhe maroteiras, roncando de luxuria bestial. Nem se imagina a teimosia d’essa canalha narcotisada para toda a especie de brio! Pela noite, sentindo a viella deserta, vinham bater-lhe surdamente na porta, ou cantar-lhe fados de alcouce, n’uma aravia baixa, onde esguichavam os erotismos do degredo e sardanapalicas com pretos. E d’uma vez acordando a deshoras, Clara sentiu-se abraçada pelas costas; e uma voz trescalando a podridão, dizia-lhe em jactos de ancia—volta-te! volta-te! Havia entre todos um corcunda que lhe inspirava terror. Era talvez um velho, ossudo e luzidio, com voz guttural, o vinho carniceiro, typo de impudencia que nada teme e nada respeita. Na cocheira chamavam-lhe o Tromba, pela montanhosa constructura do nariz leproso e uma dentuça obliqua, asquerosa de carie. Para bem dizer, era a ultima phase do homem degenerado em besta, especie de gorilla sem força nem agilidade, conservando todavia nos meneios cambados e nos traços physicos, evidente a herança do quadrumano-rei. Os outros da cocheira inda conservavam algumas regalias de homem, guiavam de noite coupés fechados, podiam transportar-se uma vez ou outra na almofada dos trens á laia de trintanarios, ou dormir fóra e guardar-se de certos serviços. O Tromba não. Era um pedaço da cocheira, uma dependencia do estrume em que dia e noite se atascava o empedramento do casebre, não podendo sahir mais que para dar agua ás cavalgaduras, dormindo na palha pôdre pelas bestas esfocinhada das manjadouras, sob os cheiros da urina, entre guinchos e pulos das argamassas, cuja voracidade por vezes lhe espetava dentes na pelle sarnosa das canellas. O alcool, as doenças obscenas e esse rachitismo larvado tão frequente no sopé das cordilheiras altivolas, tinham-no imbecilisado a ponto de lhe fazerem esquecer a maior parte dos termos, irracionalisando-o de um modo assustador. No fundo das suas orbitas lugubres, uns olhos aguados, mortos, cheios de uma especie de gomma de amido, jámais boliam para vêr. Fallava por gritos, imprecações e monosyllabos, a homens e a bestas, n’uma toada sorna, que apenas sifflava forte nos vortilhões de cólera. Incapaz de commoções intermedias, era terrivel e extraordinario nas tempestades interiores, que difficeis em salteal-o eram difficilimas de esvaír, convulsionando-o assim por horas, n’um fluxo e refluxo de doido furioso. Serviam-se d’elle os moços da cocheira como d’um macaco de recreio ou d’um urso habilidoso; e em circulo no pateo á hora do almoço, muitas vezes a Clara os surprehendeu embebedando o Tromba para rirem depois, vendo-o cabriolar entre farrapos, com uivos de animal feroz. O Tromba tinha uma paixão pela Clara, fez-lh’o entender umas poucas de vezes, explicava-o a quem queria ouvir. Essa paixão repellente e sordida permittia á risota soez dos malandrões de cavallariça, uma serie de partidas da mais original obscenidade.