Estavam abertas as lojas, havia gaz nas vitrines, lanternas sobre as taboletas dos armazens, barbeiros caros, postos medicos e photographias. Rolavam os pregões enchendo a noite de vozes irregulares, noticias da ultima hora, cautelas, a rica agua do Carmo...
E em fiadas, salpicando de lama os transeuntes, as carruagens iam em todas as direcções, cruzando-se, serpenteando, cheias de sorties-de-bal, mascarados finos, e pandegos com desavergonhadas. Gabriel era um moreno de olhos avidos, presentido, precoce, e de uma indolencia irritante. E por quanto se lhe deparava de bello, as danças, rumas de costumes doirados pendendo nas sacadas dos guarda-roupas de Entrudo, as vitrines profusas de bijouterias, os bonecos, as porcelanas pintadas, cofres de facetas irientes, terras-cotas, caraças, crystaes e estojos, sentia uma cubiça invadil-o, e dentro em si proprio, na fogosa imaginação dos primeiros annos, turbulenta e ingenua, creava um mundo de folgares e extravagancias, a cada passo modificado, refundido, remendado, feito de novo, e nunca definitivo, pelo que ia vendo na passeata das ruas. Começou por exemplo a desejar os soldados, cavallinhos e carros que via em exposição nos armazens de quinquilherias, á porta do Bernard, defronte no Seixas, e mais abaixo ainda, na rua do Almada, na vitrine da Aguia de Ouro, em toda a parte afinal.
Depois, ambicioso já de projectos, subia a um trem, botas á Frederica e cabelleira de anneis, ou vestido de azul ao lado de um grande cão senhoril, como aquelles lindos meninos que acabavam de passar, n’um alto landeau a quatro.
E de porta-machado, de bombeiro, de pagem, de velho, de diabinho e de policia, dizendo adeus e esguichando toda a gente com uma borracha de gomos verdes e encarnados, como via fazer a essa variedade de pequenos e grandes, que se cruzavam nas ruas, tumultuando a pé ou de carruagem. E percorreria as casas dos amigos, o Caetano da mercearia, o cabo Ferreira, o primo Innocencio e os mais, levado pela mão das suas aias, ao collo do papá, ou no carro do tio, entre criados de farda, velhos e graves, que dessem excellencia, todos curvados de respeito. Recebel-o-hiam então n’um côro extatico, sob saraivadas de beijos, na insolencia dos mimos prodigalisados.
—Não te conheço, mascara, não te conheço! diria o Caetano intrigado, aflautando a voz.
Á esquina do Loreto, Gabriel deteve-se um instante, aturdido pelo rodopio da multidão. Vinham em duzias os trens do Calhariz, de S. Roque, do Alecrim, Santa Catharina e toda a banda, sobre o Chiado que se alagava em luz, incendindo ao fundo da rampa o Gibraltar, e cortando claros de gaz na serpente humana, que nos asphaltos se agitava penosamente. O tom dos gritos e vozes, ganhava sobre a respiração geral da cidade, uma extraordinaria altura. A cada momento, grupos de mascaras rompiam da gentana lugubre com o arsenal de chacotas sabidas, aos saltos, enfiando em tumulto por esses armazens.
Eram pastorinhas com faces a vermelhão, marafonas de cigarro ao canto da bocca, cuia disforme, guitarra á banda e olho frascario—e pierrots, dominós de monco cahido, toda a sucia que escoicinha entre farrapos e vinho.
Através os vidros das portinholas viam-se dentro dos carros, senhoras empoadas, vestidos brancos, decotes de flores e laços, luvas de canhão molle até ao cotovêlo, scintillações de joias, espumas de renda, braceletes, leques e esmaltes nacarados de risos. Entre os amontoados de fórmas brancas e fofas, como flores rompendo da neve, ás vezes immergiam as cabecitas das creanças, em costumes de setim e oiro.
Dois passos adeante, Gabriel extasiou deante de certa montra com mascaras, onde estava muita gente parada. Deslumbrante de graça, malicia, colorido e contraste, essa exposição de caras grutescas, pelo cartão moldadas nas mais bizarras visagens. Gabriel, mesmo infeliz e penetrado de um surdo ciume pelos prazeres que não podia gozar, teve de rir com os mais em frente de muitas d’essas carrancas ensopadas de vermelhão apopletico, branco de clown, amarello e até verde, com barbaçanas de talhe demoniaco, os olhos vazios e spasmos, narizes em ponta de alambique, verrugas medonhas aqui e além, e dentuças de javali, cornamentas mephistophelicas, barretes imitando comadres e abat-jours... Havia um gallo petulantissimo, enlevo e pasmo de quantos seguiam. De bico aberto e olho vivo, o mariola dir-se-hia querer cantar. E na rua em adoração á montra da loja, quem passava detinha-se a commentar todas essas physionomias de cartão e encerado. Descobriam-se então analogias eroticas—aquella parecia o fulano, a outra o sicrano, aquell’outra era mesmo o jagodes tal... Saltavam risadas da turba, como crepitação de vinho n’um copo. E uma ovarina cheia de vergonha abalou, no meio da grita geral. Oh, a tal cabeça de gallo com a sua crista escarlate tão finamente cortada no rebordo, o bico amarello, olhos espertos e o todo invencivel de um guerreiro, fascinavam Gabriel, aparafusando-o alli no chão, attrahindo-lhe as vistas, e fazendo-o perder a memoria de tudo o mais. Como seria espirituoso enfial-a como um barrete, deitar a correr rua fóra...