Os pecegos!...

Adorei já uma mulher que gostava d’elles, e tinha uma graça infinita a mordel-os com os seus brancos dentinhos de roedora. Se tomando-lhe a barba com as pontas dos dedos, dôcemente a forçava a vergar-se toda nas costas da cadeira, para na concha rosea da orelha lhe depôr algum segredo irritante, a sua vermelha bocca gottejante dos succos perfumados, matava-me de sêde e endoidecia-me d’amor. Pobre quinquilharia loira!... Tamanha voracidade a possuia ante esses fructos voluptuosos e quentes, que d’uma vez enguliu os caroços e partiu para o cemiterio.

Na sua cova, como lição a incautos, viridente pecegueiro todos os annos carrega de fructos, brotado d’esse corpo que foi vaporoso como uma nudez de Fragonnard, e branco da inexplicavel brancura que dir-se-hia feita com primeiras nuances de hortensia, pennugens ventraes de cegonhas, e corações de rosas brancas.

Como peregrino, que de logarejo em logarejo e cabana em cabana, vai seguindo em busca de alguem que lhe foge, assim de bordão e esclavina como a bella D. Auzenda, eu me aventuro por esses campos e terreolas, fazendo sésta nos moinhos, convivendo com as boiadas leaes, pernoitando nas eiras sob o olhar das estrellas, passando a vau os rios, cruzando estradas, e detendo-me a colher ás horas de sêde torrida, os medronhos bravios das espessuras. Esta existencia de cigano reconforta-me e endurece-me. Tenho a pelle tostada, crescida uma grande barba, e os musculos das pernas e braços, estriados como um aço de rija tempera. Janto o rolão corneo dos cavadores, sardinha salgada com um pichel de vinho alemtejano por cima. Não leio jornaes, o que explica a singular lucidez que em mim refloresce a espaços.

Todas as manhãs, o sol me encontra de chapeu na mão e assobio de melro, nas chapadas adustas que os valles dominam, como pulpitos sobre as naves rumorosas dos templos. De redor de mim, esfarrapam-se as gazes da nevoa matinal; serranias confusas nos longes; faias, salgueiros e platanos desenham a curva sinuosa das ribeiras, onde o rebanho converge a beber manso e manso, n’um rhythmo de chocalhos distantes. E sobre laivos verdes de vegetaes rasteiros, tons pardos de olival, pedaços de seara madura, cannaviaes e hortejos, andam esparsas em pulverisações de branco, as casinholas de montes, aldeias, moinhos e conventiculos.

Os gallos tocam alegremente a alvorada; vão lá baixo trabalhadores de chapeirão e alforge; tudo canta, sol, gallos, velas de moinhos, gente que passa, quem vôa nos ares, quem saltita nos ramos, quem de pedra em pedra corre no fundo dos limos verdes, quem nos fios telegraphicos vibra, e até quem chora—tão phantastica a resonancia d’esta cupula cérula, extasiada na luz do sol occidental!

Na travessia emprehendida, aponto as differenças do typo, os usos, a emphase de linguagem, os vestuarios, as habitações, os processos decorativos de interior, a hospitalidade para estranhos, côr de pelle e vivacidade ingenita de cada povo e provincia. Ha contos populares, que começam devotos no Minho e acabam equivocamente no Algarve.

O tom das cantigas, em que se surprehende a indole, crenças e viver intimo das gentes, decresce em alegria de norte a sul, e occidente para oriente, á medida que nos vamos afastando da agua, que a vegetação é mais secca, a terra arida, menos profusos os rios, e mais distante o oceano.

Comparo a Canninha Verde, o Verde-Gaio e as farandoles das romagens do Minho e Douro, com a monotonia repassada de tristeza, vagarosa e funebre, das cantigas do Baixo-Alemtejo; e sinto através d’ellas o paiz extremando-se em zonas de cultura menos e menos profusa—no Minho as risonhas veigas ensopadas de agua, inteiramente em cultura, verduras radiantes á luz de um sol claro, humidas de bruma matinal, toda a erupção da vida esparsa em fremitos por uma população enorme e fecunda, que é bella e sadia, com o instincto colorista que em vestuarios garridos, dá a essa paizagem exuberante, accessorios maravilhosos—no Alemtejo, charneca quasi sempre, arida, interminavel, retalhada a siroco, reverberando no verão ardores mortaes, n’uma luz crua que vai crestando implacavelmente as epidermes e os olhos. E aqui começam as difficuldades da vida pela inclemencia hostil do meio, faltam as pescarias que são fartura e felicidade, falta a carne, as ricas hortaliças, grande parte dos fructos.