Diluida n’essa área formidavel a população rareia, deixando a agricultura sem braços. Em pontos a raça é mal cruzada pela fatalidade dos casamentos consanguineos, impostos pela distancia que medeia entre povoado e povoado, e ainda porque quasi sempre, aldeias e villas tiveram por nucleo uma familia ou duas, enfraquecendo-se a descendencia pelo mau passadio, e regressão a um mesmo typo uniforme, de certas em certas gerações. Outra vegetação implantada n’outro solo, começou porém a surgir passo a passo, um dia, não sei quando, depois de longo caminhar. Scintillava ao largo um espelho caustico, movediço e sem balisas. Veio o pinhal em massas desconformes primeiro, e após rareando em avançadas, contra a grande areia relampejante das dunas. Mudava o clima, adoçando-se de humidade salgada, dos cheiros da maresia e resinas da floresta. E sempre ante mim essa coriscação da agua sem termo, espumando nas cristas, e tendo a bocados, mosaicos de azul e ouro. Na altura em que ia detive-me então commovido, a olhar por tempo a feerica decoração assim extraordinariamente atravessada de luz. E tirei reverente o meu chapeu, para cumprimentar o Oceano.

A convivencia do mar, profunda e larga, faz o homem bom, e simples o espirito, pela contemplação d’essas superficies tranquillas e azues, imagem da pureza e da força, sobre que os olhos vogam idealmente, como medreporas em villegiatura. No mar ha um extraordinario mundo de sêres pittorescos e fecundos, cortados nas fórmas mais caprichosas, e cheios dos mais bellos cambiantes. E as povoações littoraes, risonhas na penedia e na areia, com as succursaes fluctuantes dos barcos de pesca e das rêdes, offerecem aos nervos do touriste, finas sensações que o desenervam d’essa vida cardiaca e brusca dos centros cultos, que faz velhos os homens de trinta annos, e cynicos os que não teem ainda barba. Porque estamos n’um periodo secco, analysta e vertiginoso, que leva á loucura os mais delicados, e a desalentos senis os mais robustos. Não contentes de disseccarmos os outros, de os desfibrarmos por uma especie de sensualidade, no intimo das suas sensações, das suas ideias, dos seus vicios e dos seus males, vamos tambem pondo a nú pelo escalpello o nosso organismo, viscera a viscera, nervo a nervo e vaso a vaso, buscando o segredo da vida nas experiencias do amphitheatro, querendo sentir pelo requinte de descrevermos a impressão, querendo soffrer para viviseccarmos as nossas dôres, n’uma crueldade consciente que fatiga e mata. Vejam as obras de arte modernas. Foi-se a idealisação translucida dos bellos corpos perfeitos e brancos, foi-se o requinte aristocratico das paixões academicas e nobres, em que as figuras ostentavam, nos quadros, nas estatuas, nos poemas e romances, attitudes gloriosas, harmonicas, reguladas e altivas. Por ellas, só o bello vivia, eram heroes os homens, a vida não se convulsionava em miserias torpes, o proprio vicio era bello e a desgraça sympathica. Agora não! Cada artista fixa na tela, no livro ou no marmore, o que vê, e ás vezes o que só consegue attingir por um illuminismo interior, posto ao serviço de resolver algebricamente o complicado problema psychologico.

Deixando de consagrar-se exclusivamente aos regalados do mundo, nobres, opulentos e reis, para descer á generalidade das massas e baixas classes, a obra de arte tem, para ser util, de ser sincera—e para ser sincera, de copiar a vida laboriosa, mortificada e doentia das populações modernas, os ateliers, as fabricas, os bordeis, a rua, ménages tristes de burocratas, e todos os enrodilhamentos da promiscuidade mendicante, coberta de vermine e de pustulas—essa vida que calleja as mãos, atrophia os membros, escava as physionomias, macera as epidermes e perturba o jogo da circulação, que faz do cerebro uma monstruosidade pathologica, pela actividade sem repouso que lhe imprime, definhando as mais visceras em proveito da sua avidez de funcção, fazendo chispar de encontro a tudo, essas centelhas que a certo ponto condensadas são o genio, de cujo exacerbamento resultam a loucura e a morte.

Esta violencia de arte embota os sentidos depressa, gastando precocemente as molas intimas dos espontaneos impulsos, da dedicação, da abnegação, do amor e da coragem, tornando o homem n’um sêr artificial e mecanico, com pontos de vista scenicos nos seus movimentos e discursos, desconsoladamente egoista e cynico. Não ha força nervosa que resista a este abuso de vibração, e dias ha em que as ideias se nos varrem, uma ignorancia imbecil nos estrangula, e brumosas tristezas de carcere vem descendo aos nossos olhos e aos nossos labios, no lethargico cansaço que chega sempre, após semanas de mentalidade exagerada. Ficamos então com ar de sonambulos, olhamos sem vêr, tudo doe, um desespero surdo nos tortura. E o estomago não digere bem, o pulmão recusa-nos a sua mecanica de folle, o sangue é tumultuoso, um pulso cortado de silencios, doem as articulações, doe-nos a cabeça, doe-nos tudo—é um aniquilamento sombrio, um odio contra livros, contra deuses e contra homens!

N’estas crises morbidas da alma na besta, nada como a intimidade das aguas, para reconstruir, para reconduzir, para repousar. Faz-se em nós uma limpidez provocada pela serenidade impeccavel do mar, extenso e liso como um espelho magico. Quando muito ás vezes, uma ellipsoide de espuma fervilha no dorso de alguma aspiração mais rebelde, desejo, orgulho refreado, dissabor ou paixão—como a vaga que destacando pura da granda massa, se orla de branco ao rebentar na praia.

Com que quietação interior me não estendi então nas areias, coberto de poeira, coberto de azul e bemdizendo tudo! Não me lembro em que ponto da costa isto foi—mas era magnifico.

Que vastidão de paizagem, que deboche de azul, que luz irradiante!... Para um lado iam agrupamentos plutonicos, penedias a prumo, esburacando em cavernas sonoras da onda que ia e vinha, chapinhando e refluindo. Promontorios irregulares sahiam da grande mole côr de ferrugem, em trombas que se alongavam para beber. Da esquerda, planuras de areia faiscavam em circo, a chicotadas de sol. Deante o mar, e a duna cortando a retirada por ultimo, onde phalanges de pinheiros socegadamente bivacavam. Sobre uma insula escalvada em pinaculo, o pharol sahia da agua, negro no ceu luminoso, e expandia-se na plataforma da lanterna em setteiras aluidas, com agudas torrelas nos cantos.

Era assim um dedo de colosso, sobre cuja unha roida aos gritos, vortilhando por centenas, aves marinhas vinham pousar com tremuras de azas, goelanos, alcyons, gaivotas, andorinhas do mar... Os pescadores lançavam cantando ao largo, as suas rêdes. Vinham sobre a agua badaladas de algum sino mysterioso. Todo esse viver feliz, sem rebeldias nem artificios, me commoveu pela simpleza, pela probidade, e graça primitiva e rude. Tive uma saudade aspera, não sei de que outra existencia vivida por mim, por meu pai, ou qualquer da minha raça, em não sei que tempos historicos e esquecidos. Sentia como uma volta á patria, reconhecia as fórmas, e tornava a respirar nos ares perfumes amigos, que me extoxicavam de uma especie de innocencia e de uma especie de alegria. A minha actividade era repartida entre as companhas dos barcos de pesca, longas palestras no barracão do salva-vidas, ou a concertar rêdes á porta das cabanas. Assim eu aprendi a vêr e a recompôr esses grandes typos do mar, fulvos e crentes, com os seus olhos pequenos de pupilla inquieta, japona azul nos hombros quadrados, pernas nuas, barba rara, ageis e gigantes, com uma profunda melancolia de face. As linguas da onda vinham lambendo a praia humildemente, como um cão fiel que afaga o dono. Em bandos, os pequenos nús rolavam-se na areia, ou faziam de mergulho espadanar a agua. E eu sem saber qual mais puro e transparente, se o céo se o mar! Á noite recolhia as minhas impressões rabiscando o carnet, e no palôr sonambulo da lua, dormiam as cabanas acalentadas pela voz do Oceano e a lanterna girante do pharol encandeava as aves do mar, fazendo-as suppôr que era o dia a romper.

Tres mezes assim. Quando uma noite despertei ao estrepito das vagas. A bruma viera, fazendo deslocações de fumarada compacta, cinza claro pelos effeitos da phosphorencia, que fazia do mar um punch em flamma, que a colhér do vento fosse remexendo procellosamente. E em revolta a agua urrava, tripudiava nas cavernas, soluçava, cantava e ria. Praia fóra, despertados de chofre, os pescadores gritavam em côro, não achando os barcos na amarra. Ia começar o mau tempo. Eu tinha alinhavado este livro nos ocios da bella estação que se morria. E n’essa manhã parti.