E para Gabriel, ninguem olhava! Muitos ramilhetes estavam completamente seccos, havendo perdido o aroma e as côres. Uma vez ou outra casualmente, os olhos de uma senhora caridosa ou de um velho conde, detinham-se um instante sobre a mercadoria reles do gaiato; mas passavam logo, sorrindo alguns da miseria da pobre creatura, exprimindo outros uma sympathia triste, e nenhum dando a esmolinha suspirada—não era chic!...
Por fim Gabriel atirava os ramilhetes sobre quem passava, e ainda assim ninguem se condoia.
Algumas meninas zangaram-se, e uns poucos de senhores o repelliram com dureza. Quando de repente um cocheiro, magnifico como um elephante, cabeção de pelles e pescoço curto gritou á bruta—hé homem!
Conduzia um carro balanceado em molas, fofo e caricioso como uma alcova, puxado a cavallos brancos.
E Gabriel que virára machinalmente a cabeça, viu ao alto da escadaria do theatro, n’um cortejo de senhoras fidalgas e cavalheiros, os tres meninos da loja de mascaras. O mais espigado ia de gallo, Gabriel reconheceu a famosa cabeça da vitrine, de crista rutilante e alta como um penacho de couraceiro, as barbas pendentes, bico amarello entreaberto... Para ser completa a illusão, tinham vestido os braços do pequenito em azas de ave, verdadeiras azas de pennas, recortadas, retracteis, cheias de cambiantes e matizes. E se o menino cantava có-có-ró-có! agitando as azas e debicando graciosamente as brancas mãos das senhoras, era uma risada de todas as boccas, um frenesi de beijos, um triumpho sem exemplo...
Aquillo parecia a Gabriel uma affronta. Mas atirou ao gallo as ultimas flores, sentindo a garganta presa de lagrimas, e os olhos turbados de uma especie de vertigem. Um dos ramilhetes apanhou o mais pequeno dos fidalguinhos, que se virou furioso do desacato, e dando com o descalção da loja de caraças, sobre elle rompeu de mão erguida. Oh, nem alli o poupavam! Gabriel então, não foi mais senhor de si—atirou-se a elle como um leão, e tamanho socco lhe arrumou, que o sorvado petiz foi cahir longe nas pedras, berrando despropositadamente. Prenderam-no. Esteve dois dias n’uma estação, levaram-no ao tribunal depois. Foi ahi que a Clara o encontrou, esfomeado, escaveirado, sem o cesto, sem flores e sem cautelas, vazio de reacção, incapaz de se mexer e de fallar. A pobre mulher olhou-o por um momento de olhos seccos, dizendo:
—Deus te faça differente de teu pae!
E esteve todo o tempo severa, concentrada, quasi indifferente ao que ia. Gabriel nunca a tinha visto assim. Quando o mandaram com Deus, a mãe disse-lhe seccamente:
—Anda!
E foram. A desgraçada encontrára no caminho uma leva de facinoras, que ia embarcar para o degredo; n’essa enxurrada tinha reconhecido o amante.