Os ramos eram uma desgraça de amachucados, murchos, sem aroma e sem côr. Quem compraria aquelle esterco todo? Mas era entrudo... E a mulher ensinou ao pequeno o itenerario a seguir—praça de Camões, Chiado, com estações demoradas onde estivessem muitos senhores, na Havaneza, nas pastelarias, á porta da Trindade por causa do baile infantil, esquinas do Rocio, Passeio...

Foi-se Gabriel mais o precioso açafate de vimes, apregoando, offerecendo a uns e a outros, dez reis o ramo, ramos grandes, era o resto! Ás tres da tarde, desde a praça de Camões ao Rocio, era penoso o transito, passeios apinhados de gente, mascaradas cruzando a via, trens cobertos de caixeiros, homens a cavallo, policia em renques, muito chapeu amachucado. Entre a Havaneza e o candelabro do largo, a concorrencia ia furiosa e compacta, de janotas e vagabundos, cujo gaudio consistia em fazer parar os trens para lhes lançar immundicias dentro, esguichos de varios liquidos, cartuchos de pós, feijões e más palavras. Quem se indignava soffria apupos, os dichotes do alto estylo, e triplicada dóse de porcaria annexa.

Convergindo alli no antecipado intuito de gosar o mais possivel, cada primate tratava de expedir berros furibundos e gargalhadas de bebedo. Alguns ardentes e ratões tinham-se empoado em casa; outros armados de borrachas com pipo esguio, regavam as golas e espinhaços da sociedade; varios desabotoavam-se, beliscavam-se, aos abraços nas mulheres do povo e pedindo desculpa do engano.

E a cada vegete galopando heroicamente na pileca derrancada, a aurea juventude da casa Garrett nomeava-o pelo nome, chamava-o, fazia-o parar para um segredo.

Em carros descobertos e camisa, de mascara microscopica e luva branca, braços nus, pescoços nus, altas meias de sêda desenhando pernas nervosas, as hespanholas appareceram ao alto, batendo palmas.

Houve na massa um urro. E o berreiro avassallando os ares, expluiu de toda a banda, n’um triumpho indescriptivel. O elegante Ricardo até, da primeira sociedade, saltando a um dos carros, lançou ás raparigas uma alta contribuição de beijos. A esse tempo achava-se Gabriel á porta da Trindade. Sahia gente do baile infantil.

Quanto Lisboa tinha de creanças radiosas, perfumadas, illuminadas e frescas, vinha descendo d’aquelle baile findo, todos os tamanhos e todos os vestuarios, n’uma riqueza inultrapassavel de estofos, bordaduras e agaloados. Uma especie de gravidade e pedanteria, aprumava alguns dos pequeninos heroes; viam-se grandes damas de quatro palmos roçagando caudas pelo braço de adoraveis fidalgos de Luiz XIV, coquettes e roseas, rindo com as suas boquinhas em flexa. Havia polichinellos microscopicos como illuminuras, preoccupados das marrecas, chapeu de guizos á banda, beicinho em momo desdenhoso, e um azul cheio de sol no olhar. Os pequerruchos de collo eram os mais diabolicos e vivos, gesticulavam por cima do hombro das amas com as mãositas de covinhas, as unhas chatas, mechas de cabello na testa, e babando sem respeito os ricos fatos coloridos. Nas familias fecundas e ricas, quando a ninhada iriente se ajoujava no fundo dos landeaux descobertos, profundos e ovaes, bulindo as cabelleiras luminosas, vestida das côres mais puras, cingindo-se com os bracinhos curvos, trilando as divinas coisas da alma balbuciante, atirando beijos a primos e primas nas pontas dos dedinhos frescos, desinquieta, teimosa, ensolada, dir-se-hia uma familia de aves do paraiso exercitando forças á borda do ninho, para debandar pipiando e rindo, na vida musical das florestas.

Em cada detalhe de costume, setim, brocados, cachemira, rendas e plumas, todo o bazar de estofos destinado a moldar os tenros corpinhos de uma graça divina, se ia surprehender a passagem de dedos brancos e delicados, e construir sem esforço a paixão das mães pelos seus bebés, a dedicação das irmãs mais velhas, os orgulhos talvez de toda a familia, que se impozera collaborar na pequenina obra prima, dando o estofo uns, cortando outros no modelo, e cosendo a legião feminina, por algum d’esses tranquillos serões em que as cabeças deredor da mesa n’um mimo se retocam, sob a luz velada do candieiro.

E Gabriel de cabeça baixa, cheio de uma inveja lugubre, esguedelhado como um monstro de conto, todo roto e todo sujo, pés descalços na lama, calçotas recomidas na orla e incrustadas a remendos de côr, o ar bisonho de um rapozinho engaiolado, estendia machinalmente o açafate de vimes, vendo passar tantos principes e fidalgos; marquezitos de casaca a matiz e caixa de rapé esmaltada; pastoras do Trianon levando papoilas e espigas nos chapelitos de palha; poetas e cardeaes tasquinhando bon-bons de chocolate e baunilha; frageis judias de olhos pudicos, com pantalonas de sêda clara, chapins de oiro e véos de lhama espumosa; os abbades de côrte, tricorne á banda e bengalão ferrado—e Mephistopheles de quatro annos, Marias Antoniettas de seis, Sakespeares de oito, de envolta com alsacianas morenas e loiras, com magicas, primaveras, auroras e noites, Margaridas de mãos cruzadas no collo e escarcella á banda, todo o mundo celebre da historia e da arte, reduzido em escala infinitesima, alado de petulancias vivas, rindo em graça virginal, tão scintillante de côr e adoravel de pequenez, que dispersando em tribus pela rua, era como uma chuva de flores em cachos, vertida de alguma cornucopia de deusa prodiga, n’um dia de nupcias celestes.

—Flores a dez reis, flores a dez reis! É o resto, bons ramos...