—Viste o teu pae por ahi? perguntou ella.
Gabriel fez com a cabeça, que não.
—Tambem, nunca vê nada, o diabo! disse ella com mau modo, e ficou-se absorta em não sei que lembranças reconditas.
Nem cinco reis em casa, cada vez mais exigentes os estomagos, a doença cortando-lhe o recurso do trabalho, e no dia seguinte, o seu cordão de oiro tão fallado, posto em leilão na casa de penhores, por atrazo de juros.
Não havia muito que ouvira no pateo da cocheira, um moço contando aos mais o crime do Largo da Paschoa—no dia anterior, um malvado que se escondera debaixo da cama d’um merceeiro, e alta noite o degolára, depois de com elle rolar n’uma lucta horrivel, de que o cadaver expunha os mais atrozes signaes.
Surprehendido em fuga com um sacco de cobre, o assassino tinha confessado tudo, brandindo o punho ensanguentado, n’um sardonismo altivo que lançára terror por toda a cidade.
E outra vez o Tromba viera com dinheiro, a fazer-lhe propostas! Aquellas coisas lançavam Clara n’um desvario. Vinham-lhe presentimentos tragicos, medos de tudo, da noite, do idiota, dos ladrões e de morrer de repente, deixando ao desamparo as suas tristes creancinhas. E esse que ella amára, em que sitio parava?
Por tabernas talvez com moças de faca, na prisão ou no hospital. E as suas lagrimas corriam!
No dia seguinte, Clara não pôde sahir, sentindo-se mais alquebrada e dorida. Mandou Gabriel á venda dos ramilhetes, com recommendações para que não sujasse o açafatinho de vimes.