Eram desenxabidos os tres, d’uma magreza fina côr de pingo de tocha, desfibrada e molle, que vem das ligações consanguineas e da chlorose dos salões, mas vivamente incendida pela chamma inquieta dos olhos, luzidios como dois onyx molhados. E á bocca da loja, bem firmados na lagea do portal sobre tacões impertinentes, os tres manos rechaçavam Gabriel em linha de batalha, tendo os braços estendidos, mãos retracteis e promptas a espatifal-o, e esse tranquillo ar de victoria desdenhosa que serve a humilhar de morte o vencido.

Gabriel corrido, humilhado, e com medo que elles levassem a cabeça de gallo, estava fóra da porta com os punhos fechados, capaz de morrer de vergonha. E abrindo temerosamente a boccarra, deitou fóra contra os insolentes, talvez meio palmo de lingua.

—Estes gajos, lá por serem ricos... disse elle no meio da rua.

Mas sentia-se infeliz, desamparado como um cão, e roido de miseria, no fundo da sua pequenez e da sua orphandade.

Em casa, roendo o pão mal-o queijo da ceia, aos pés do catre em que a mãe se estirára, disse n’um vago de saudade:

—A esta hora, mãe, toda a gente está ahi a reinar, e a comer ricas comidas. Se a gente fossemos ricos...

Clara mascava os miolos do pão sem vontade, seguindo a penumbra errante, que na muralha carbonosa e humida, a luz do candieiro sem petroleo, fazia dançar vagarosamente.

Como não respondia, o Gabriel olhou-a.

—Não é verdade, mãe? Não é verdade?