O lojista remexia caraças, provava-as um instante na cara dos freguezes, desenrolando crepes, dizendo preços, indo e vindo muito atarefado.
—Ó meu senhor! repetiu Gabriel mais humildemente.
—Que temos? disse o homem sem olhar.
—Quanto é aquelle gallo, faz favor?
O lojista dobrou-se por cima do balcão a ver quem fallava; e riu-se. Aquelle riso era terrivel. Gabriel baixou a vista, arrependido de ter entrado.
—Quinze tostões, disse o homem.
O pequeno recuou aterrado, como se o obrigassem a comprar, querendo ir-se embora e ficando-se, pegado no chão de medo. N’isto, um senhor que veio com tres lindos meninos, deu-lhe um encontrão casualmente, ao passar, e vendo o gesto do pae, um d’esses anjinhos côr de rosa, embonecado e loiro, ergueu a mãosinha para lhe puxar os cabellos. Os manos vieram logo a empurrar tambem o mendigo, puxar-lhe os andrajos, varrendo a loja n’uma colera frenetica e fria.
Vinham em velludo azul, fachas de setim pallido cingindo-lhe os saiotes, meia perna nua, rebordos metallicos nas botas, e chapéos revirando á maruja.
O maior era um delgadito de olho auctoritario, bocca frenetica estancando um d’esses narizes unciformes, que a gente depois vê entre aros de oiro no parlamento e na opera, com a aggressão de uma proa de guerra entre lucarnas de beliches.