—Quem vive? camisa ou ceroula?
E sendo contrarios os que altercavam, estabelecia-se de prompto o combate e corria sangue a golfões, de vencidos e vencedores.
Os que expiravam, diziam no estupor da ultima hora:
—Morro pela ceroula!
E narrando o caso, o Times escrevia:
—Mais uma victima da roupa branca de Sua Graciosa Magestade...
Ora, estavam as coisas n’estes termos, quando uma commissão de sabios e philosophos, de mistura com alguns dos melhores camiseiros de Londres, foi pelo governo da rainha encarregada de precisar a questão, e restituir ao publico a tranquillidade para desejar, em tão tormentosas circumstancias. A camara dos lords votou milhares de libras ao trabalho pujante da sciencia e rouparia inglezas. Os jornaes publicaram retratos e biographias dos commissionados, animando-os com apostrophes estridentes; os clubs de nomeada abriam ao grupo eleito as suas salas de conferencia e de jantar; e em toda a linha as apostas repetiam-se e os duellos multiplicavam-se.
Ao mesmo tempo, choviam dos prelos as pesadas brochuras ricas de argumentação, inultrapassaveis de logica e até ricamente providas de certos promenores. Segundo o doutor Kater, a peça de roupa guardada no cofre era um par de ceroulas, attendendo á malha negra que demarcava a bifurcação das mangas,—maneira de vêr que mereceu uma sessão solemne ao Collegio dos Cirurgiões, de Londres. Conforme se inferiu das actas e boletins d’esta preciosa sociedade, a malha trahia a ceroula, por quanto a sciencia confirma a relaxação de certos musculos pela decapitação. Mas a alta chimica ingleza que tinha assistido em silencio ao debate, interveio pedindo um resquicio, infinitesimo que fosse da substancia, afim que os modernos processos de analyse lançassem o ultimatum que o caso urgia. O publico inglez porém não consentiu, tal o respeito dos saxões pelos monumentos historicos! E n’uma solemne protestação, duzentos meetings fizeram sentir ao governo a sua vontade sobre a malha do bom rei Carlos Stuart.
Sir Bell, o tribuno, fez um discurso genial, clamando reprobo e criminoso aquelle que tocasse, com a ponta do nariz que fosse, no medalhão negro da reliquia.