—Viuvo, ando de preto pela mulher, não vê? E respirou com força.

A sua voz era branda, sem os tons ingratos, intimativos e duros, do ricaço afeito a mandar ganhões e cavadores, a fazer contas á noite, a dar palestra nas abegoarias e nas eiras, e a pesar todos os homens na balança egoista dos contos de reis. Então encarando-o em cheio, vi que era pallido, com olheiras papudas, sobr’olho hirsuto, e a testa fugindo em dois fios de calva sobre as temporas luzidias.

—Ficou-lhe o pequenito, prosegui eu. É o que tem casar de certa edade; faz-se tarde para educar os filhos depois.

Elle abanou a sua grande cabeça com ar grave, e a olhar distrahido para fóra, quebrando a cinza do cigarro:

—Esse é um dos perigos, disse. Ha outros, se a mulher é nova...

—Ah, sim, tornei eu. Nova e leviana!—E olhei-o a rir. Vi-o pôr-se em pé sob o impulso de uma mola interior, escarrar com ruido, dizer palavras incertas:

—Felizmente não tenho razão de queixa... Levava as mãos ao ventre, procurando o que fosse com gestos errantes.

—... sim, não tenho razão.

E pregava o camisote de lucto, ia ao pequeno, voltava á janella. Mas como eu olhava para elle fez-se branco, e affirmou com força:

—Palavra de homem de bem!