—Mas juro que acredito! disse eu admirado da singular insistencia. Na confusão tinha lançado fóra o cigarro, e buscava mortalhas pelos bolsos:

—Este mundo é uma comedia, olhe que é! Tenho-as soffrido boas, não ha que vêr.

—Nunca se é completamente feliz, opinei do meu lado, e elle fez que sim com a cabeça.

—O senhor está novo. N’essa edade os desastres não deixam mossa, vê a gente tudo côr de rosa. Mas em velho, creia, a coisa é outra.—Estendeu o braço para os campos que sahiam vagos da noite e da nebrina, sob o pallor do ceu matinal. E com intervallos absortos:

—Tudo isto é meu!—Riscava com o braço o horisonte—Além fica a herdade das Donas, além São Brissos que foi do Moira de Arrayollos, lá longe ainda se vê a Martineta, terra guapa para sementeira! Vida, vida!...

E mais longe:

—Podia metter-me a arrotear descampados por ahi, tudo terras gordas, virgens de colheita, aguas da mãe... Milhões em pouco tempo!

Riu-se com aspecto triste.

—Por ahi invejam-me a lavoira, gente feliz! Mette sempre cubiça aquillo que é dos outros. Olhe que é assim!