—E porque não tenta essa agricultura em grande? inquiri.

—Ora, deixal-a! fez elle com um gesto desalentado. Quem vier atraz de mim, fará o que entender.—E voltando-se:

—Cá o petiz... se chegar a homem, algum dia.

—Ha de chegar, porque não? tornei eu, e em resposta o velho disse-me:

—Muito obrigado ao senhor.

No Pinhal Novo, entrou gente de Setubal, encheram-se as carruagens, a familia de um coronel sentou-se entre nós, e não fallámos mais. Ás vezes olhava-o do meu canto, via-o espreitar o pequenito que dormia, com uma sollicitude terna, filtrada de passivas tristezas. E os cabellos brancos faziam-lhe corôa, abaixo das abas do chapeu. O coronel, enorme como um cyclope, todo feito a crista de gallo, o cabello já branco muito encarapinhado, rompia como uma torre sobre os mais passageiros, na fanfarrona postura dos hercules de chafariz. E o morgado mirava-o com humildades paisanas, de soslaio, sem se atrever a fital-o em frente, n’uma admiração pelas lunetas azues e rutilante coloração d’aquella magestosa senhoria, toda sonidos de esporas e espalhafatos de oiro nos canhões da vestimenta. De tamanho esqualo exsudavam aspeitos de sopeada bravura, fragores de carga e bramidos de commando. N’essa mão fechada sentia-se o nervosismo de quem marcialmente comprime punhos de durindana invencivel, na vanguarda dos esquadrões a toda a brida, e sob fumaças de canhões ululantes. Um respeito vergava a obesa corpulencia do morgado, quando um prior sacou farnel da mala, dizendo não ter almoçado capazmente. Perguntou á volta se alguns dos senhores ou madamas eram servidos. E patenteára um desconforme cabaz de provisões, fiambre, doze ovos cozidos, um gordo frangão de recheio, tangerinas, e marmelada para desenfastiar. O rubro coronel, que era um amigo pelos modos, não recusou a sua golada de Porto.

—Está bello! dizia o prior. Sirva-se de laranjas, snr D. Emma, são das nossas.—E a D. Emma, filha do coronel e zarolha, com plumachos brancos n’um chapeu de telha escarlate, volveu com mimicas fastientas que agradecia muito, mas não. O coronel pôz-se então a fallar. Era uma vozita de incomparavel meiguice, toda pastosa nos RR, sollicita, mansa, escorrendo falsetes de menino do côro. E com grandissima surpreza, o morgado ouviu esse guerreiro côr de lacre, tão babylonico de construcção, discreteando em tramas de cozinha, mal-o prior. Confessou-nos elle que daria tudo por um legitimo recheio, mas o que se chama tudo!

Só dava verdadeiro merecimento a recheios, quem os sabia preparar. A receita do Cozinheiro dos Cozinheiros era uma burundanga de tasca. E com soberbia, alevantando as charlateiras flammantes n’um pavoroso jogo de omoplatas, desafiou alli quem lhe désse leis sobre a materia. E no mais! geleias, podins, cremes, toda a qualidade de molhos, e umas tripinhas do Poôrto, seu prior?

—Oh, isso é famosissimo! disse o reverendo, a mastigar fiambre com dentes de fradalhão. E investindo os circumstantes por cada vez, em cata de adversario, o famigero coronel gabava-se de ter lido tudo que andava escripto sobre o assumpto, até calhamaços vindo de França! Contava mesmo artigos seus no Almanach Taborda, provando os inconvenientes do cidrão no podim d’ovos... o que lhe mereceu cumprimentos do prior, que não sabia estar fallando com o illustre litterato. Tambem apreciava d’alma as invenções da pastelaria, os bons podins, as ricas geleias, o cremesinho de fructa alli na mesma da hora.

Bebericava com ruido de sorvos. E declarou ter em Azeitão uma moça, que sabia temperar isso celestialmente, o que fez abaixar os tortos olhos da D. Emma.