Dois annos depois n’uma estação de banhos, já por outubro, fumava na praia uma tarde, quando um homem de lucto me veio cumprimentar, com um arenque de rapaz pela mão.

—Como vae indo o senhor?

Fallava-lhe sem me recordar de o ter visto alguma vez—bem, obrigado, como está? É seu filho, este pequeno? Doentinho, segundo parece...

—Nada, não senhor. Fraco. De maneira, que vim aos banhos. Diz o medico que é bom, para a frouxidão de nervos.

—Sim, sim, dizia eu bocejando.

Elle puxou o pequeno para mim, fêl-o fallar, fêl-o andar—estava mais crescido, não estava? mas pouco appetite... E afagava-o de leve, enlevado n’aquella sujidade amarellenta, molle, sem reacção, somnambula e ephemera como uma esponja do mar. A espaços, quando uma vela corria ao largo, o macaquinho alongava a mão chata, desengonçada, lembrando pelos deditos curtos um pé de ganso com palmouras, e gania:

—Oh pae! pae!

—Que é, Luiz?

—Olhe além uma embarcação.

Ficava a rir descóradamente o seu riso de esqueleto, em que jámais luzia a emoção desordenada e viva das creanças rijas. Por vezes mesmo, querendo fallar não sabia exprimir, esquecia as palavras, varriam-se-lhe as ideias, e engasgado punha-se a olhar feito parvo, de redor. O pae então ia-o ajudando, e vibravam na sua voz meiguices entretecidas com lagrimas.