Aqui e além, havia pequeninas cidades de barracas, senhoras de claro, chapeus de palha, gente em trajos de banho, guigas embalando no vai-vem da maré, marujinhos de unhas côr de rosa—e aos pedaços, na franja das rochas, fortes desguarnecidos, bandos de cabeças palreiras, corpos vogando á flôr d’agua, os que sahiam do banho aos guinchos, os que iam de costas sobre a arfagem da onda...

E aquella vida de praia luzia ao sol alegremente, carros de palha á espera, chalets emboscados no fundo das quintas e jardins, a fluctuação dos stores listrados sobre as sacadas abertas, heras trepando por torrelas de ardozia, e rapazes com raparigas fazendo o seu cricket antes de almoço, pelas aleas ensaibradas de fresco. E os jornaes que chegavam de Lisboa, os japonezes do Domingo, á mistura com gelados de encommenda vindos na barafunda do mesmo carro, em grandes caixas de folha...

Na sua cadeira da ilha, isolada da colonia feminina, altas maneiras de andaluza petulante, a condessa libertava então os cabellos do bonezito de palha atufado n’uma blonde diaphana, e accendia um cigarro no charuto do conde, que na areia aos pés d’ella, como um Terra-Nova favorito, a fitava com os seus olhos de gato bravo, amarellos e inquietos. A espaços estendia a condessa o abanico para o mar, seguindo algum paquete fumegante já na ultima linha d’agua,—e tão graciosa a fumar, que até as velhas perdoavam!

Deitava-se para traz ao expellir fumo, n’um quasi espreguiçamento amoroso, esticando as pernas sob o vestido apertado, de cuja orla escarlate os pés sahiam batendo compasso na areia.

Ás vezes trazia na escarcella, cahindo á cinta por um cordão de oiro fosco, alguma edição bijou. E em quanto o conde lia, descahida, as mãos pendentes, uma ondulação por toda ella, a condessa sentia-se viver, rolando n’um torpor a sua sombrinha japoneza bordada de cegonhas brancas.

Paquerettes des prés, vos couleurs assorties

Ne brillent pas toujours pour egayer les yeux...

Iam-se chegando então surrateiramente os gulosos da boa femea, os estouvados, e o resto. Ella distribuia cigarros toda rosea do calor, com uma sombra azulada por baixo das palpebras, feliz de ser o alvo, de attrahir e deslumbrar as que lhe roubavam o córte dos corpetes muito acertados nas costas, sem costura nos seios, modelando em graça hellenica a provocante expansão das pomas, e a curva divina do ventre que tinha sob o estofo, a lascivia escandente d’uma nudez de harem.

Conde e condessa de que? Um nome qualquer. Ninguem verifica titulos n’uma terra onde elles cahem sobre quem passa, como antigamente as aguas suspeitas. Elle um hespanhol da Andaluzia, trigueiro, nervoso, de olhos allucinados, e parecendo-se diabolicamente com um marcador de bilhar que eu conhecera em rapaz. E tinha os modos francos d’um senhor, ditos de graça pícara, essa originalidade dos paizes do sol, brusca, deslocada e jovial, onde parece retinir o turbilhão dos guizos e pandeiretas, de quando escoicinham fandangos.

O Alvares que tudo sabia, pouco me disse do conde.