—Tinha apparecido em Lisboa ia em quatro annos, montado n’um cavallo inglez e seguido d’um creado de farda e calção d’anta. Depois do cavallo, deitára carro; vendera o carro um dia, e disparou dois tiros n’uma casa de jogo. Pouco mais ou menos, percebes a coisa? Em seguida—o Alvares não se lembrava bem—bordoadas no Marrare, um entrudo; em resumo appareceu de condessa. Agora sério, trata de vendel-a por ahi, como vendeu o carro. E ella, uma real zorra, filho!...

Rebolava os olhos por traz dos oculos fixos, e com certo suspiro canalha, profundo e vicioso:

—Derrete-se a gente todo, só de pensar n’isso. Que fará... percebes a coisa?—E abalou muito atarefado, limpando o suor do cachaço apopletico.

Demoravam-se os frios em chegar, dias lindos, o mar um delicioso lago. No club, walsavam a toda a hora. Sob toldos e decorações, havia festas de côrte na esplanada; uns navios de guerra ancorados na bahia, simulavam defronte, no escuro das noites, bombardeamentos em regra, a fogos de bengala—e toda a gente se divertia, gabando o serviço da marinha nacional.

E todos os dias regatas, cavalhadas, o tiro constitucional ás gaivotas, um bazar de creches, o demonio! Nos primeiros logares, o conde e a condessa, ajoujados, os melhores amigos do mundo, appareciam aos commentarios da multidão—ella em pompadour de sêda crua, bonnézito á banda envolto n’uma gaze ligeira; elle premindo na orbita petulantemente o monoculo, e impertigando o seu estomago alto de mundano. Faziam-se loucuras em volta d’essa mulher disputada, conhecedora do que valia, e pondo ao serviço do seu temperamento frio, as maneiras distinctas d’uma senhora de raça. Era d’estas cocottes severissimas em publico, artistas por intuição, com predilecções requintadas e nervos irritantes, amando a conversa, sabendo rir, excitando e fingindo não dar por isso. Nos seus beiços havia um reflorir de romeira brava, humido e vivo, contrastando com a pallidez mate das feições ovaes, e um tic voluptuoso de narinas, que no riso lhe bordava scherzos de aristocratica finura.

Chegaram a apresentar-me o conde, que se convidou a jantar comigo n’esse dia, e me pediu para lhe trocar não sei quantas notas de ouro.

De resto adoravel, sua pontinha de obscenidade temperada em cynismos elegantes. Fallámos em rapaziadas, amores faceis, predilecções de vicios, as regiões da femea que mais nos agradavam. Elle bebia excellentemente, e a cada passo fazia revelações libertinas, de rapaz solteiro. Derivámos d’ahi na hieraldica, quanto era distincto ter brazão na carruagem, um ou dois castellos nas sierras, pomares em Andaluzia, e descender de wisigothicos monarchas. E a paginas tantas, perguntei que opiniões politicas tinha elle. Encolheu os hombros, gostava de reis, e de rainhas ainda mais. Nada como as côrtes historicas, para a fermentação do luxo artistico e do amor como prazer de gente fina. As monarchias não serviam sómente, segundo pensava, para tornar os Estados felizes, mas a requintar o gosto, fornecer ás artes assumptos nobres, e apurar a belleza patricia das mulheres.

E virando-se para o creado:

—Eh, passa-me essas ervilhas da decadencia.

Bebia sem conta, copos sobre copos, batendo murros na mesa. Perguntou de repente: