—Oh, disse eu rindo, encantador!
Mas fui atraz d’elle rangendo os dentes de raiva, ganindo como um cão esfaimado, ganas de lhe encher a cara de bofetadas, de o arrastar pelos cabellos na immundicia das regueiras, de o deixar morto á pancada para alli vilmente, como a sua torpeza merecia. Esta intenção exaltava-me perante ella talvez—e o meu desejo crescia em tumulto com ideias aventureiras, fugir com ella, tel-a comigo noite e dia, chupar-lhe o sangue por uma punhalada, ou rolar agonisante de amor nos seus braços, entre os cachões de uma torrente. O vinho exagerava-me tudo, a fórma das casas, a buracaria das janellas, os rumores do mar, os echos da rua, e os sons dos pianos.
Lá ao deante seguia elle a cambalear, cantarolando, e a sombra esguia do seu corpo era como um reptil enorme que ondula, escorregando sem ruido.
Umas poucas de vezes, perdida a cabeça, desatei a correr atraz d’elle, chave do bahu na mão, para lhe esmurrar as ventas. E de repente parava, que era isto, que tinha eu com elles?... Rasgava-me o peito a certeza de que os dois iam dormir, beijar-se, trocar juras, fazer promessas e escarnecer de mim talvez, inda por cima. E como se ella fosse minha, um ciume feroz golfava amarguras dentro de mim, bramindo vinganças desordenadas. Afinal dobrou a rua, não o vi mais. Começou então um desespero surdo, pela absoluta impotencia da desforra. Onde tinha elle entrado, quaes as janellas do seu quarto, como surprehendel-os, fazer escandalo, chamar-lhe a ella nomes infames?
A rua voltava bruscamente, havia uma rotundidade de largo, á esquerda a fachada de uma igreja, depois ruellas tortas convergindo. E eu ia e vinha escutando os passos, que ora soavam n’uma rua, ora na opposta, ora morriam, ora pareciam ir-se aproximando. E a sombra que oscillava cosida com as casas, uma vez se me afigurava á direita, outra á esquerda, e assim.
Então precipitava-me contra ella, suando em bica, cabellos ao vento, gravata ao lado—dava com um escuro de portal, sombras de arvores, algum cão vagabundo roendo lixos. Um pescador que passava abalroou comigo, dei-lhe um encontrão furibundo, quiz agarral-o tomando-o pelo outro.
—Desculpe, desculpe.
E corrido, atordoado, comecei a andar de cabeça baixa. Havia baile no club. Que tinha isso?
Era fechar os olhos, via-a dentro de mim côr de fogo, côr de rosa, de todas as côres. E cabellos turbulentos nas espaduas, pés nús, braços nús, hombros nús, seios nús, toda ella núa.
Essa nudez, eloquencia victoriosa da carne, fulminava-me, imbecilisava-me, fazia-me calafrios pela medulla abaixo. Nunca vira bocca mais vermelha, nem dentes mais lascivos, nem expansão de ventre mais deshonesta e divina. A tentação do asceta lendario evocada entre privações, nas febres nervosas da loucura, não tinha concentração mais calida, que o delirio em que eu fervia! E pela côr da sua face e das mãos, pela esculptura dos hombros, dedos afilados e cabellinhos espiralando no tom fulvo da nuca, eu reconstruia esse corpo de um jacto—seria alta, cinta elastica, uma expansão de tulipa invertida, dos quadris aos joelhos, rotulas macias, redondinhas, côr de rosa esvaído, e tornozêlos finos, um pé estreito e alto... Então sacudiria a camisa, friorenta, atirando os cabellos para as costas n’um geito colombino de cabeça—e sobre uma pelle de urso branco, ante o espelho cingido em lilaz e rosas pallidas, de Sèvres, sorriria namorando a propria belleza o pondo riz nos hombros, de mão na cintura, como as bellas estatuas delphicas.