—É desgraça, vergonha não, disse eu gravemente. Que culpa póde ter o senhor d’essa...

O velho apontou-me o camisote de lucto, e duramente, em resposta:

—Que morreu, faz tres annos! Ai! o que eu tenho soffrido, o que eu tenho passado em quatro annos para cá!... Caramba, não esmigalho a cabeça por olhar á creança. Quem cuidaria d’ella n’este mundo, desinteressadamente? Diz que o dinheiro dá tudo; mentira! Talvez elle me roubasse a mulher. E não haver leis para degolar as adulteras, que deixam os maridos, os filhos, e debandam por esse mundo com miseraveis aventureiros! Ai, nenhuma foi mais amada que a minha, todas as vontadinhas, todas as creancices, todos os caprichos, até vinha doce de Lisboa em condeças, aos sabbados de tarde. Pois enganava-me, para se vingar do amor que eu lhe tinha! Vestidos todos os dias a chegarem, um rôr de libras só em musicas: e quando foi da exposição em Paris, e jornadas a Hespanha, mezes inteiros por Lisboa, os verões nas melhores praias de banhos... E eu sempre com uma boa vontade, uns cuidados, menina isto, menina aquillo, e a perder noites no theatro, a ir com ella ás regatas, a arriscar-me no mar, capaz de se virar o barco... Gostava d’ella, então, nunca se viu alguem gostar d’uma mulher? Que sou um rustico bem o sei, filho d’um triste creado, um reles homem de trabalho; ninguem me deu principios, não tinha obrigação de adivinhar certas delicadezas. Mas ella podia bem esperar que eu fechasse os olhos; para a não estorvar, até acharia meio de morrer mais cedo. Uma esmola que fazia. Pois nem isso, infeliz de mim! E inda aquillo vem reclamar o pequeno, que é muito meu! Pago-lhe as lettras, pago tudo, esse traste que descance. Mas o meu filho, nunca! Capaz de m’o envenenar, aquella perdida!

Tirar dos seus habitos um pobre velho; e ao cabo, fica-te para ahi deshonrado, sem ter quem te dê caldos na doença, e quem te reze na agonia. Pois foi o velho que a tirou da miseria, e da filha d’um reles almoxarife fez uma senhora. Inda essa mulher se gaba de ter sangue real nas veias. A mãe era gansa de principe, não admira que a filha sahisse o que sahiu. O senhor não faz ideia dos meus tormentos, não faz! Basta dizer que apenas dormimos uma semana. E para nunca mais.—Tenho vertigens, está uma calma, e desculpas, desculpas, entrou a explorar-me, hoje tanto, ámanhã tanto, desprezos, más respostas, um ar de escarneo; e um dia, vou pedir-lhe perdão de joelhos, e expulsou-me, dizendo que eu era um labrego indigno d’ella, e que havia de fugir com o primeiro. Eu tinha já desconfianças horriveis; o senhor perdoe-me, é desafogo—mas uma noite acordo de repente e senti beijos. Desde essa hora foram-me a embranquecer os cabellos, de noites que passava a chorar, a passear na casa como doido, a morder a roupa para ninguem ouvir os gritos. Era um ciume, uma febre, uma raiva de a morder toda, de a arranhar no peito, de lhe puxar pelos cabellos, veja o senhor—mas que? se eu tinha dó de a magoar, pobresinha, que ahi anda agora sem ter quem na aconselhe, creança como é, ainda por cima maltratada de todos. Capazes são elles de lhe bater; que ha taes canalhas n’esse mundo!... Ai! um dia foram-se-me as duvidas, desgraçadamente vi. Expulsei-a, acabou-se; não sei como, expulsei-a! A gente perde a cabeça, tem momentos de não saber o que faz. Hoje, era differente. Emfim! Foi como se tivesse morrido. Até deitamos lucto, veja o senhor. Pois assim mesmo me explora. Sou-lhe preciso sempre, vem sollicitar o meu auxilio sem pejo, saca sobre o meu nome a quantia que quer, o Vianna tem ordem... E nem ao menos, muito obrigado. A perdição faz as mulheres crueis e sofregas. Tanto que fiz por evitar esta desgraça, tanto! Perdoava-lhe a primeira, seria com ella um pai, como d’antes.

Mas vicios, tenha paciencia, santa paciencia, em minha casa não!

Não! não! não! Antes degredado, antes cahir por esses barrancos bolindo de bichos, antes a morte sem sacramentos. Adeus, disse elle, pondo sobre mim os seus olhos supplicantes; não me despreze, não me queira mal, no fundo todos somos uns podres, mas vem-me um phrenesi por ella ainda hoje, ainda agora, sentil-o-hei toda a minha vida. É uma cegueira, é um castigo, é um destino, de noite levanto-me como doido, vejo-a em toda a parte, onde quer que vá, e por mais que faça para a esquecer. Fez saltar a tampa do cofre hispano-arabe, tartaruga e oiro, onde estava uma photographia sobre esmalte indestructivel. E n’uma especie de allucinação arquejante, de furia nervosa, ficou a olhar longamente o retrato, como se o visse brotar do medalhão, e pouco a pouco ir avultando, tornar-se palpavel... Fallava-lhe com palavras doces, como a uma creança, em voz baixa, cobrindo a figura de beijos, o olhar flambando d’amor.

—Que linda! Mesmo santa!—E n’um choro afflictivo, gaguejando: podias vir, vês tu, eu tinha lá coragem de te mandar embora! E assim, nunca mais, nunca mais!

Instinctivamente então, commovido por aquelle phrenetico amor de septuagenario, que o absorvia, tão grutesco de feitio, tão vil de expansão, cheguei-me ao cofre para vêr. Pobre velho ludibriado, assim bom de maneiras, com delicadezas de instincto a espaços rompendo da rude casca exterior! pensava eu... e n’isto dei um solavanco inesperado, reconhecendo a anonyma condessa da sombrinha japonesa, successo da praia na estação que ia, cocagna de toda essa mocidade roida e palaciana que dandynava fazendo cæcum á corte em villegiatura, raro e fino animal que o hespanhol andava mostrando, apreçando, explorando, offerecendo cynicamente, interesseiramente, como n’um bazar asiatico d’escravas. No espanto em que ficára, nem achei uma boa palavra que dizer ao morgado. Que? Era então a condessa, aquelle impudor de raça, aquelle alegre vicio vestido nos magasins du Louvre, cheio de attitudes Robida, com elasticidades de cobra cascavel, tão provocadora a fumar nas frescas manhãs de praia, entre as risonhas banalidades da alta gomma, assim descaradamente distincta, fina, e espirituosa como uma parisiense de Duez; era então ella a esposa de similhante alarve? Que gaucherie de debute, realmente! E vinha-me o escarneo de tão desprezivel origem. Uma morgada da provincia, com creações de coelhos e magustos de bolota ás chaminés da herdade... Singular, como ellas cursam de repente a alta escola do quartier Breda, com uma canalhice tão chic, e sem largar o palminho de terra parvoneza. Vão lá descobrir n’esse sourire chapeau rose, um laivo sequer do gaspacho trastagano, vão! Francamente bom homem, ia mentalmente confessando para mim, ao considerar na obesidade amorosa do morgado—se fosse outra, condemnava-a por haver atraiçoado essa tua molle bondade de porco gordo. És uma bella pessoa, sem offender quem está. Todavia, eternisando comtigo a lua de mel dos bem casados, aqui para nós, a condessa ficava d’um grutesco... Ha coisas, tu comprehendes, que uma mulher de gosto não póde fazer sem compromettimento. Imagina tu, que ella entrava a nutrir matrimonialmente em parallelo comtigo, conforme é uso nos ménages patriarchaes do teu districto. Diabo, diabo! Era obsceno n’uma senhora.

Punha-me então a imaginar a condessa no segundo dia de esposa, de pé no seu palacete de provincia, ainda em trajos de noiva, e acordando do seu somno de virgem, para repellir o amor d’esse homem vulgar com rebelliões de princeza captiva, transfigurada, inflammada, pedindo alguem que tivesse espirito, um ideal de cultura, e fosse bravo, dedicado e doce, com largas maneiras de senhor. E aquelle homemzinho de charrua, tão singelo e tão gebo, filho d’um creado, gerado n’um ventre de mulher de monte, herdeiro das boçalidades, grosserias moraes e joanetes paternos, tendo virtudes previstas na Carta, um compadre em Lisboa, e explorando o trabalho das aldeias com o ar de as proteger, terror dos candidatos, emprestando a juro, senhor de mãos grossas, com as unhas esmagadas, cabellos nos ouvidos e uma dôr sciatica pelas mudanças de tempo, pronunciando sem graça e rindo com dentes verdes; esse homem estaria ajoelhado aos pés d’ella, braços febris contra a sua cinta ondulosa, suores na careca, e tartamudeando monosyllabos de satyro decrepito. E via-o cheio de pretensão, fato novo, arrotando contos, dominado por um vicio de rapariguinhas novas e endurecido no egoismo dyspeptico dos viuvos, fazer cerco áquella pobre filha do almoxarife de coutada real, ambiciosa como todas as engeitadas de principe, cheia dos formilhamentos d’um luxo entrevisto em caçadas de côrte, espreitado pelas fechaduras, aspirado no rumor das festas reaes, no telintim das baixellas, em musicas de camara dominadas d’uma austera graça, nas toilettes das grandes damas, scintillas de rivières e voejos das ventarolas pintadas por Greuze e Galland, todos os requintes da alta vida, exagerados na pragmatica de palacio e fazendo cyclone n’esse espirito de gazella vaidosa.

E a vida de casados n’um horror de herdade, as janellas da camara nupcial abrindo sobre algum pateo de lavoura, cheio de carretas do captiveiro de Israel, ganhões em mangas de camisa assobiando ao gado que bebe, cães errando de lingua fóra, e a raza campina ao largo, ceifada, pellada, sem guarida, sem pascigo, sem arvores, anesthesiando a vista, carbonisada de sol, e pondo um oceano de separação entre esse insidioso caracter de mulher bella, e a nevrose scintillante das capitaes, por elle tão ardentemente sonhada. Por mais que fizesse, e por escrupulosa que fosse, essa mulher devia fatalmente vir a detestar o marido, tendo-o sempre deante de si, no deshabilée do rendeiro que tem gazes e teme a apoplexia.