Toca a encher as enfusas. Algumas das moças entravam nas vinhas a colher parras para ornar de grinaldas as cintas finas, as cabeças loiras e os bojos porosos dos cantaros arabes. E aos pares, ondulando os quadris, iam subindo a encosta cheias de esperanças e radiosas de sonhos, e o rumor das cantigas fluctuava no tranquillo ar da meia noite, em cuja limpidez o S. João benevolente, estendia as suas mãos cheias de promessas.
Ora a Rosaria só desceu da herdade á uma hora, a grande preguiçosa! E sósinha por entre as arvores, n’uma pallidez de audacia que lhe ficava bem! Tudo no monte ficára a dormir, o pae estiraçado na eira, a mãe resonando na alta cama de casamento, os rapazes por cima das moreas de trigo, bois deitados por baixo das azinheiras da pastagem. Dois novilhos sómente, quasi bois feitos, retouçavam nos fenos, pulando, rebolando-se, furtando-se os corpos vigorosos, n’uma alegria de titans em bacchanal. E todos brancos, mansissimos e perfumados, dir-se-hiam principes encantados, esquecidos dos seus palacios de oiro, n’aquella metamorphose exigida por alguma velha fada rabugenta.
Rosaria ainda esteve um bocado a miral-os.
Era o novilho da vacca Mourisca, mais a novilha do visinho Pedro, pastor da herdade proxima.
—Diacho, disse ella a rir para comsigo, cantaro ao quadril, tão novitos ainda, e já namorados. E a cantar desceu a ladeira. Que luar que fazia, que silencio se alastrava!... Nem um ai de rouxinol noctivago, nem um echo de cantigas esmorecendo nas quebradas. Um pouco além, no cabeço do outeiro, o portal formidavel de um dolmen negro, desenhando como um branco de olho malicioso, rebolado em fervores de lascivia. E atravessando n’um feixe esse portal, a poeirada fina da lua, vinha em aureola cercar de uma vaporisação phantastica, esse perfil de zagala israelita. Quando chegou á fonte viu a clareira coberta de ovelhas, que empurrando-se em silencio, furando, cahindo e mordendo o pó que levantavam, tinham pressa em chegar á grande pia de pedra, para beber. Em pé sobre as lages da fonte, o pastor tirava agua com um grande balde de cobre, enchendo a pia, que logo tornava a ficar sem gotta. Rosaria ergueu a voz:
—Eh lé, visinho Pedro.—O pastor parára de chapinhar na agua. Gritou-lhe:
—Eh lê, Rosaria!
E ambos immoveis, sem querer avançar, ficaram a olhar-se no turbilhão do rebanho.
—Bonita noite, disse um.
—É verdade, fez o outro.—E um grande silencio.