Era o Albano, zingaro de escóla, dos que envelhecem a fazer o curso, sempre cabulando, encalvecendo, sabendo de tudo, não tendo conhecimentos completos de coisa nenhuma, e sentindo pelos regulamentos das aulas, desprezos que os graves mestres faziam pagar com reprovações e annos perdidos. Albano era um chupado de oculos fixos, com a sua careca apostolica de falripas temporaes, maxillas de cão rateiro, bocca sardonica com dentes de gume branco, e um corpo rachitico, corcovado, esgrouviando do fato pelas curtas mangas da nisa, e pelas pernas curtas das calças.

Os cafés conheciam-no pela grossa jovialidade, um rir nervoso que punha guinchos d’alarme ao canto das suas palavras, e o phantastico humor cheio de pochades, buliçoso e crivado de ironias, que lhe tinha valido a raiva d’algumas pessoas em bonita posição. Pelos atrios das escolas, essa figura torta servida por uma lingua damnada, punha má impressão, nos premiados sobretudo, onde a sagacidade do cabula teimava em diagnosticar os maiores herbivoros do curso. Citavam a sua phrase de todos os dias, ao encontrar conhecidos, dita n’um rythmo cheio de pausas, que por si já sibilava ironia.

—Bem bom! Bem bom!—Geito amargo n’um canto da bocca, e logo:—Então que escandalos?

Sem nada affectar, andava ao facto de tudo, sabia fallar em tudo, lia tudo, jornaes de sciencia, livros de todas as especialidades, poemas, romances, historia, critica, e musica de todos os auctores, porque é de saber que tocava maravilhosamente rabeca. Se lhe contavam o escandalo suspirado, sem o qual morreria de paixão, de inanição e tristeza, era vêr os guinchos de deleite em que entrava, e interjeições em que todo parecia bulir.

Encontrára uma noite o Arthur na Brasserie, palavras trocadas a respeito d’um chapeu de chuva esquecido, um jornal de gravuras folheado em commum, e ficaram conhecidos. O fato velho de Albano, inspeccionado com attenções minudentes, pareceu satisfazer o nosso homem.

E sympathisaram, tinham entrado logo a discutir, apertaram-se as mãos á despedida, e ás noites depois de jantar, eram certos na Brasserie para o cavaco.

Pouco a pouco, as relações estreitaram-se quanto era possivel em indoles de sobrecenho, como estas. O mais expansivo era Albano inda assim, com as suas mordacidades cortantes, um largo desdem pelas coisas consagradas d’antemão, e a concisa formula sobre os celebres e grandes homens—que tinham todos sua perna podre, podendo esta ter apodrecido em varios pontos do individuo, na consciencia, na cabeça ou em regiões vergonhosas. E a esmiuçar biographias de condiscipulos e mestres, illustradas com os detalhes pittorescos das vaidades assolapadas, calinices ex-cathedra, e desenhos de typos feitos em ar comicamente grave, derivou d’ahi nos personagens mais em publicidade, politicos, litteratos, e dinheirosos influentes. Arthur que o ouvia regalado, em silencio, completou-lhe as vistas criticas, esfibrando então com as glotonerias d’um homem posto de banda, as individualidades da arte, que o outro conhecia pouco; e fez-lhe a sua vida artistica, como antes de estudar em Roma tres vezes fôra preterido nos concursos de pensionista, como vindo do estrangeiro com amplas provas de artista tinha achado hostilidades entre irmãos d’armas, dentro da academia mesmo, e por amor d’ella nos jornaes. E sem recursos, n’um paiz pobre onde os amadores d’arte ornam as salas com oleographias, e as galerias, escadas e vestibulos com gessos e cães de faiança, elle referiu a sua inhospita miseria n’uma agua-furtada de Santos, faltas de modêlos, desalentos e orgulhos desprezados. N’essa causa commum que faziam, chegaram a estimar-se, indo cear economicamente de quando em quando.

Era d’ordinario n’uma taberna do Bemformoso que tinham logar estes festins com canôas, n’um cubiculo pintado de verde, com reposteiro de ramagens, bico de gaz ao alto, e um gato amarello enorme, de collete branco e ar caricatural, que ronronava molhando nos pratos as suas barbas mephistophelicas. Muito especial alli o vinho, um grosso vinho pintado de roxo que alem de servir para marcar roupa, afogar baratas e trazer ictericia a quem se lhe affeiçoava, possuia a inolvidavel magia de dar talento aos actores do Principe Real que o aproveitavam assim por todas as fórmas, na tintura dos cabellos, na collagem das barbas postiças, em injecções e banhos geraes, reviviscencia da memoria, extirpação de callos, ou com sardinhas fritas nos entreactos... Nunca o taberneiro se cançava em fazer o elogio historico do fabuloso elixir.