—Lá em Torres, o lavrador é muito entendido na arte, e homem de todo o aceio. Em apanhando os vinhos na conta champa com elles p’ra dentro d’um tonel novo, onde está um carneiro morto com tripas já se sabe, tudo muito bem lavado. E alli se desfaz aquelle carneiro, n’aquelle vinho, até restarem só ossos. Deixa afinar aquillo muito bem, e sempre digo aos senhores que fica um balsamo mais sustancial! Os freguezes engordam todos que não sei explicar.

—Olhe cá, dizia o estudante, de que morrem as gallinhas cá na estalagem?

—Mas de faca.

—Não se me finja carrasco! Quando desenterraram esta, coiso?

—Que diz o senhor?

—Vá! Em principios do mez passado li eu no jornal o convite da familia para o enterro.

N’estas ceias discutia-se tudo, o Oriente, as doenças de cerebro, mulheres, quadros, aguas de Cabeço de Vide, Beethoven, os coelhos albinos, e quem sahia visconde ou casava rico. Albano que achava a litteratura decadente na área latina, tinha uma adoração por Balzac. Balzac e Beethoven! E o seu olhar fuzilava e o seu coração batia. Havia uma coisa egual a escrever a Comedia Humana, era ter composto a pastoral e a Symphonia Heroica.

Fóra d’isto, nada. Pintava Rastignac desafiando Paris na sepultura fresca de Goriot, e o avaro Gobseck dilatando as pupillas de tigre contra os diamantes d’Anastacia. E essas duquezas de grande ar, dando bailes de rainhas, lançando os amantes nos grandes cargos, enchendo Paris da sua belleza, corroendo a sociedade com o seu espirito e phantasia, aladas, deslumbrantes, desprezando as leis, jogando, empenhando, descendo dos fastigios ás vergonhas, sublimes e vis como a carne em que se insculpiam, punham na cabeça do estudante um intangivel mundo feminino, a que elle dava as suas paixões, os seus formilhamentos e furores de homem. Amar a femea da rua dos Fanqueiros depois d’isso, era uma profanação de ideal. Eis porque ficaria solteiro. E se o outro gostava d’amendoas torradas?

O Albano ia vêr Arthur todos os dias, com o seu cachimbo operario ao canto da bocca, o livro da vespera debaixo do braço.

—Bem bom! Bem bom! Então que escandalos hoje?