—Aquelle idiota do G. que partiu uma perna.

—Ora até que afinal! respondia Albano esfregando as mãos. E como quem fundamenta o seu odiosinho: não era senhor de lhe offerecer um calice, que não acceitasse logo. Bem bom! Foi castigo.

Se nas sessões parlamentares algum dos Castelares que alli grassam, vergastava em demosthenicas o ministro com grossa arruaça das galerias, se um condiscipulo soccava outro, ou qualquer vulto da sciencia fraquejava em conferencias, relatorios ou debates de especialidade, um prazer inexhaurivel fazia o Albano guinchar, bater palmas, n’uma satisfação radiosa e sincera.

E a face de Arthur refloria, parecendo a ambos que os desastres alheios os içavam em triumpho pelo mastro interminavel da fortuna.

Estes demolidores que esguichavam facecias lugubres sobre os immortaloides que nas saias da Academia, á sombra copada dos archivos, encalveciam a investigar da dentuça podre da rainha Catharina e dos bastardos de Sancho, elaborando memorias de estructura cornea; que faziam troça nas procissões e paradas, das mumias de guerra que viam com pompa, cavalgando ginetes e destingindo immorredoiramente ao som dos hymnos; que bandurreavam dos bilhostres politicos, dos oradores, dos paspalhões e obsoletas industriaes nacionaes—moviam processos scientificos d’escarneo contra essa rotina de paiz morto, rindo a ironia dos fortes, com ribaldarias cynicas de triolet. Era Albano quem fallava quasi sempre, inundando as ceias de canôas, com vinho e projectos de regeneração publica, decretos mirabolantes convergindo a resolver de vez, o insoluvel problema da vida portugueza contemporanea. Cada qual se punha então a dizer o que faria em chegando a ministro. Albano optava pela plantação da beterraba em grande, no que havia de gastar o quarto das receitas do Estado. E pequeninas grandes obras collateraes, por exemplo inundar a Europa de palitos feitos á machina, seis milhões por hora; pôr em arremate uns bancos de bacalhau por elle descobertos em Cabo Verde; enviar uma commissão de sabios á China fazer estudos sobre o rabicho... E sempre no fim: Olá, peixe!—Aquillo deixava o esculptor boquiaberto.

—Mas a arte, a sciencia, nada? perguntava elle timidamente.

—Quanto á arte, dizia Albano riscando a careca com a sua unha em garra, estou que daria resultado um conservatorio de musica e choral para os atuns do Algarve. No que respeita a sciencia, fundava em Coimbra uma faculdade anterior ao estudo das mais, a faculdade de pensar. Como vês, é maravilhoso, simples e facil.

—Ahi está o genio, notava Arthur.