—Ai, ai! fazia o estudante, atochando o estomago gargantuano com savel frito. Tinha elle uma irmã lindissima, figura de parisiense, meudinha, nervosa, penetrante, musical.
Como Arthur pelo tempo adeante necessitou procural-o, forçoso foi dar-lhe a morada e franquear-lhe a porta. A casa era pobre, terceiro andar para mãe e filha, com sotão para o bohemio dormir. Arthur começou a gostar da pequenita, a vir mais vezes, a olhar para ella de certo modo.
Depois um nome delicioso—Judith! E o esculptor pensava já muito sériamente n’uma estatua de Holofernes, que tivesse a sua propria cabeça.
Um grande alto-relevo que esculpiu para não sei que fachada, trouxe-lhe renome, por alguns dias exposto. Obra excellentemente lançada, esse alto-relevo d’assumpto biblico, com figuras vaporisadas em attitudes d’uma belleza piedosa e serena, e cabeças do mais fino toque. Essa magnifica pagina de marmore, guardava o symbolismo ingenuo e a bondade lyrica, que impressionam a indole sentimental de todo o bom portuguez. Havia n’ella perfis de medalha, roupas que se collavam respirando, pés e mãos de irreprehensivel trabalho, e o ar antigo que vem da leitura dos prophetas. Os jornaes fallaram da obra, quasi toda a gente foi vêl-a, e o Occidente mesmo deu gravuras, o que lançou o esculptor. Por esse tempo vinha elle para visinho de Albano, tendo alugado um rez-do-chão de que fez atelier e residencia. A casa tinha no fundo uns metros de quintal, recinto ensombrado de grandes arvores e todo chilreante de pardalada.
Com o terreno inclinado, desfrutavam-se em chusmas lá longe, perspectivas de cidade que rebenta de escombros, campos d’arrabalde, quintalorios onde latadas tufavam, terrenos de pão, hortas retalhadas pelos trabalhos da avenida nova, predios em ruina, casas perdidas em jardins, montões d’entulho, bandeirolas, e na linha do horisonte as torrellas côr de óca da Penitenciaria com cimos de ardozia em pyramide.
Debaixo das arvores, o esculptor installára a secção de chinquilho e cricket dos seus ocios artisticos, com succursal de trapesio e barras fixas, da gymnastica que se impunha todas as manhãs, ao levantar. Davam para alli as janellas dos predios proximos, e n’uma que Arthur vigiava, vinha assomar curiosa e risonha muitas vezes, a cabecinha loira de Judith. Adoravel essa cabecinha de craneo pequeno e testa pura, com a sua face magrinha e pallida, bocca em coração, queixo petulante, e um modo de rir com flechas d’aurora nos beiços, de timbrar a palavra em gorgeios, e fazer cauda de x x x aos pluraes—ox olhox, ox cabellox, já sabemox... que encantavam a perder o rude trabalhador de blocos. Qualquer mulher artificiosa de educação e toilette, tel-o-hia fatigado ou ferido mediocremente. Esse perscrutador brutal, acostumado ao estudo das linhas, dos gestos, das expressões physionomicas, todas as mimicas que a estatuaria fixa e modela, tinha o odio dos artificios, dos ares de palco que a vida das cidades imprime aos individuos, e as mulheres exageram cuidando n’elles irradiar toda a belleza. Nascida em orphandade e pobreza, provinciana no coração da cidade, vivendo com a mãe sem relações, entregue ao trabalho caseiro e ao seu piano de estudo, Judith conservava uma frescura cheia de individualidade, ligeirezas d’alveloa a sessenta volteios por minuto, e uma graça bravia de corça, que vinham antes da sua harmonia physica e da sua belleza innocente, que d’uma educação prodigalisada com mais esmero. Arthur gostava d’ella como um velho póde gostar d’uma creança, pela figura franzina, pela alegria casta, e essa innocencia relampagueante dos olhos, viva, curiosa, agitadiça, sem falsos pudores de palpebras descidas ou perturbadas, que n’outra seria petulancia, e era n’ella excesso de virgindade, de creancice e pureza d’alma.
Vestida de claro, percale rosa, qualquer cassa branca franzindo até cima no peito com severidades de virgem huguenote, o corpete esvasando no desenho arabe d’um vaso, mãos luminosas, estreitas, setineas, sahindo dos punhos de renda em brancuras de magnolia, era deliciosa indo e vindo, dos seus bicos de lacre para o piano, do piano para a janella, da janella ao bastidor, do bastidor para a cozinha. E Arthur vendo-a buliçosa, n’um formilhamento de sêr nubente e delicado, com paraisos de neve na carne, toda impaciencias contidas, ondulações de quem está crescendo, gritinhos, risadinhas, começos d’árias e dolencias de larynge, tinha vontade de lhe estender o braço como um ramo d’arvore, para ella vir pousar debicando o seu corsage de madona, no pri-pi-pi matinal das andorinhas na cimalha dos campanarios. O que sobretudo elle adorava nas suas volatilisações d’artista, eram as attitudes de Judith, d’uma tão inconsciente nobreza, pura arte e graciosa factura, que o attrahiam, que o dominavam, enchendo d’egoismos essa contemplação muda de esculptor. Por exemplo, como ella sabia depois d’uma sonata, ficar apoiada no piano por tres dedos apenas, sem peso, sem esforço, o busto um quasi nada para traz. A sua figura tinha assim uma distincção de miss, doirada pelos olhos de loira, cujas fibrilhas claras torvelinhavam com labyrinthos de hydras, nas aguas de uma fonte.
D’entre os hombros sahia-lhe a garganta alta, vergando como haste de flôr rara; o labio de cima tinha ao centro uma gotta de coral deliciosa, que se desfazia no riso, e voltava a tremer, toda pendente, nas horas contrafeitas; e nenhum prazer maior que vêl-a de perfil em fundos violentos, com o seu moderno typo de cidade, exquisito e fino. Tinha a edade em que a mulher está ainda sem sexo e todavia não é já uma creança, fins de infancia em começos de adolescencia, o que ha de mais mimoso na vida feminina, desejos que a admirem e esquecimentos logo d’essa pequenina vaidade, rubores d’uma palavra mais alta, d’um riso largo, rubores por coisa nenhuma. E uma encantadora desordem interior, de ideias, sensações, gostos, e prazeres virginaes! Ditos sem intuito um mez antes, modos de a olharem na rua, qualquer insignificancia quotidiana, alarmavam-lhe agora o natural assustadiço.
Por vezes, de relance, n’essa conflagração de phases vitaes que não tinham podido extremar-se ainda, subitaneas tempestades marulhavam—os seus olhos accendiam constellações de sonho; certas maneiras de detalhar a respiração dir-se-hiam suspiros; cerrava muito os braços contra as costellas, pondo no busto duas azas de amphora etrusca, como se uma febre de abraços lhe viesse. E tão impressionavel, que a menor nuvem a fazia nervosa, e a menor sensação d’altura lhe dava syncopes; em dias de chuva, collada por traz dos vidros, olhos baixos, um susto da fria consternação pardacenta, pousava em immobilidades de chôro, como uma andorinha roubada aos seus novellos de ellipses, pelo bom tempo, no lapis-lazzuli do ceu. E então uma familiaridade a conversar!
Ainda não conhecia Arthur de quinze dias ou vinte, e já sem preambulos entrava a querer saber o que elle tinha feito durante o dia, a que horas tinha sahido, a que horas recolhia, e como é que sendo tão novo, podia viver tão só.