Esse plebeu, rosnador como os cães de fila, intratavel, sem paciencia para massadas, macambuzio e mal disposto, sentia uma immortal felicidade em responder ás perguntinhas d’ella, em adivinhar ao seu lado e por seu mando, todas as charadas e logogriphos do almanach, em guial-a nos desenhos e trazer-lhe florões para bordados. Deante de Judith a aspereza d’elle adoçava-se n’uma timidez serviçal, recolhida se ella o não mandava fallar, radiosa quando lhe sorria. E á flôr da sua larga face operaria, vinha um rubor de felicidade, n’essas visitas passadas em palestras triviaes, casos de jornal e vida caseira, em que desfilava a tragedia narrada pelo localista, as carestias da Praça, uma musica nova, e do que cada um tivera para jantar.
As narrativas de naufragios, choques de comboios, explosões de minas, cidades inundadas, incendios e roubos celebres, duzentas, trezentas mortes, um supplemento algido d’orphandades, viuvezes e desamparos, obras-primas do bello horrido que a phantasia dos reporter-yankees a meudo exporta para chocar os nervos lassos da velha Europa, faziam nas duas pobres senhoras impressão fulminante. Arthur lia o caso, e abaladas, dando exclamações em volta d’elle, mãe e filha commentavam o desastre choramigando, fazendo hypotheses, phantasiando promenores.
A mãe, parando de costurar, calculava:
—Trezentas pessoas mortas, vamos que duzentas eram casadas, e cento e cincoenta tinham filhos... Cento e cincoenta orphãos, já nós cá temos! Nome de Maria! Agora, dêmos cem pessoas a mais de um filho... Onde esta desgraça vae parar! As pessoas a quem estas victimas protegessem, parentes velhos, pobresinhos de porta, creados antigos, empregados das suas lojas... sim, porque haviam ter seu commercio, a sua vida... e ahi fica tudo ao desamparo...—seguia-se um grande suspiro—Ai! ai! Este mundo, bem pensando... E para mais, em sexta-feira! Emquanto uns riem, outros choram.—E já não dormia bem aquella noite. Em que afflicções se veriam os desgraçadinhos por aguas do mar? E que pensariam elles n’aquella hora?
Por vezes Arthur surprehendia-se tambem commovido, porque interessado no contraste d’aquella simplicidade ingenua e sincera, pouco a pouco, sem n’isso reparar, ia sendo por ella dominado. O sentimento de quasi paternidade que lhe vinha ao pé de Judith, revelava-o elle nos presentes que lhe fazia, medalhões com baixos-relevos de Virgens e Christos, beniterios de espaldares rendilhados, albuns de aquarella e carvões de paizagem, flôres, quinquilharias e até ninhos, dos passaros que nidificavam nos grandes platanos do quintal.
Nunca se esqueceria da ineffavel frescura de lagrimas que sentira no peito, a vez que indo vêl-a com uma grande rosa branca, toda orvalhada, ella viera com uns geitinhos infantis tirar-lh’a muito delicadamente, emquanto os seus olhos claros scintillavam. E desfolhando a rosa com os dentes, petala por petala, fôra-a comendo com a especie de gula voluptuosa com que os canarios debicam folhas d’alface, e tendo sempre os ardentes olhos pregados n’elle.
Todas as manhãs ao erguer, Arthur fazia a sua hora de gymnastica revigorante, preparatoria dos trabalhos do dia. Começava com vinte kilos em cada braço, ia d’alli aos saltos elasticos sobre pranchões fixados a variadas alturas, depois fazia as distensões, torsões e suspensões do trapesio, acabando no moinho, grande trabalho de destreza, que exige olho fino, corpo d’aço e precisão de mathematico.
Da janella, se acontecia estar levantada, Judith dava gritos de susto, pedia-lhe para suspender os trabalhos, ameaçando-o ficar de mal com elle, se proseguisse.
Arthur socegava-a com palavras de valentia, intimamente lisonjeado ao menor dos seus gritinhos hystericos—e se na janella do sotão as lentes do Albano brilhavam, era uma festa entre os tres.